Serrera Moments Torrontés 2008

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Esse vinho comprei praticamente às cegas sob indicação do sommelier de uma loja de vinhos daqui de Salvador. Não conhecia a vinícola, mas ele falou muito bem do rótulo e bons exemplares de torrontés não são tão disponíveis por aqui.

Um ótimo branco! Que vai para minha listinha de brancos a serem degustados sempre! Daqueles que num sol maravilhoso se comportam da melhor maneira possível. Aromático como manda a casta, persistente e com uma complexidade a mais dos que os brancos de “dia-a-dia”. Aroma de frutas brancas maduras e em calda (maça, pera), um tanto floral e algum toque de mel, amanteigado. Na boca um ataque elegante, com acidez maravilhosa convidando sempre a um novo gole.

Foi degustado sem comida alguma, mas é sem dúvidas um vinho gastronômico para acompanhar não só carnes brancas mas arriscaria também um bom camarão grelhado ou com algum queijo suave.

* R$ 45, www.espumantesweb.com.br

ARGENTINA

Robert Mondavi Private Selection 2006

Esse foi um dos vinhos degustados no Peru numa (des)harmonização bem louca. Eu naquela sede de experimentar acabei nao me prendendo tanto a uma harmonização perfeita. Rolou de tudo com esse vinho, mas o prato principal foi cuy com papas, que ele acompanhou adequadamente.

Um Robert Mondavi Private Selection 2006, elaborado com predominância da cabernet sauvignon (há também, em pequeno percentual, syrah, merlot e outras castas para equilibrar o blend). Em sua perfeita forma! Se tiver um 2006 na adega deguste logo! Sob pena de experimentar depois um vinho morto.

Começamos com o vinho, para ao menos a avaliação dele ser livre de uma harmonização duvidosa. O vinho é bem redondo, bom corpo, taninos macios e acidez baixa, um tanto perigosa, (minha eterna obsessão pela acidez), mas com toda a robustez que se espera de cabernet. Uma boa persistência olfativa e também na boca.

Trata-se de um vinho correto, mas bem característico da “parkerizaçao“, com muita extraçao de fruta madura. Um pouco mais de complexidade lhe cairia muito bem!

* R$ 85, www.vinhocracia.com.br (safra 2007)

EUA

 

No Peru: comida, pisco e um pouco de vinho

Um carnaval no Peru muito intenso. Cheio de experiências gastronômicas, vínicas (etílicas) e especialmente pessoais, que é difícil resumir. Poucos dias, mas que pela intensidade pareceram semanas. Difícil voltar ao cotidiano.

Duas coisas me impressionaram bastante no Peru, além dos objetivos óbvios da viagem: a comida, que já sabia da sua riqueza, e o serviço. Os peruanos são especialistas em receber bem. Sejam os serviços turísticos em si, seja em restaurantes, lojas, etc. Voltar pra lá é mais do que uma vontade, é a certeza de estar em ótimo lugar. Todos os dias comi e bebi o que se come e o que se bebe por lá. Claro que os vinhos não ficaram de fora mas os pontos altos da viagem foram:

  • degustação das ótimas cervejas cusqueñas com carpaccio de alpaca
  • pisco sour como drink de boas vindas em todos os lugares
  • ceviches, muitos ceviches, em várias versões.
  • choclos em todas suas versões possíveis: desde o milho de rua até o milho estourado por dentro, a pipoca ao avesso, e a chicha morada, mais ou menos um suco de milho roxo.
  • cuy com purê de papas locais
  • as mais variadas espécies de papas, em forma de chips, nos couverts dos restaurantes
  • todos os tipos de aji, pra esquentar até a alma.

Trouxe na mala uma garrafa de pisco, a famosa bebida peruana, e dois não tão famosos vinhos peruanos. Serão boas surpresas? Veremos!

Sendo este post um post meio off, ressalto que ele é mesmo pra matar um pouco a saudade. Saudade de um lugar tão cheio de cultura própria (e orgulho dela!), de nuances gastronômicas e especialmente cheio de cuidado e ritual com as pessoas e com aquilo que se põe à mesa. Como a companhia era das melhores não havia como esta viagem ser mais perfeita!

Hasta luego Peru!

Vinho e Doces

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Sempre achei estranho beber vinho junto com a sobremesa. Claro que quanto mais você bebe vinhos mais experimentação vai se permitindo, mesmo aquelas que parecem ainda estranhas. Entendam-me, sei que a harmonização funciona, mas nunca senti necessidade de um vinho junto com a parte doce, o fim da refeição. É como se deixasse de realmente desfrutar da sobremesa em si e até desmerecendo o vinho. Mas enfim, tenho avançado um pouco mais nesta celeuma e têm sido boas as experiências.

Definitivamente a harmonização com doces é um grande desafio pra mim.

Dia desses fui de vinho do Porto com chocolate amargo, combinação clássica e simples. Embora pra mim seja pouco pragmático, afinal em restaurante as sobremesas são mais elaboradas e o chocolate ainda é a meu gosto o melhor acompanhante do café (cafeína addicted).

Já um bom sauvignon blanc (consegui tirar a casta do meu “limbo” com esta combinação) junto com salada de frutas (e frutas ácidas individualmente) não tem melhor! Num dia quente, na piscina, na praia, em casa, talvez num dia de comida mais leve. A acidez do vinho junto com a acidez das frutas só faz elevar o vinho e melhorar bastante uma simples salada de frutas!

Estou buscando agora uma boa harmonização de doces com espumante, mas o brut (minha idéia fixa de desafio) tem me frustrado. Acredito que o caminho seja ficar mesmo com os bons moscatéis.

Harmonizações muito restritas me frustram bastante, e confesso que na harmonização com doces minha grande questão tem sido buscar combinações mais despretensiosas, leves. Os vinhos ditos “de sobremesa” (Porto, Tokaji, Sauterne) tenho preferido na harmonização por contraposição, acho mais adequado ao “peso” dos rótulos.

Mais um curso: WSET

No último sábado em Recife participei do curso WSET, nível 1, da “The Wine School”. É um curso bastante reconhecido onde a maioria dos que vivem no âmbito dos vinhos já ao menos ouviu falar. Estava há tempos querendo participar mas somente agora consegui conciliar o curso com uma ida à Recife. O nível 1 é bastante básico, mas o primeiro passo pra mim que quero cursar até o nível 3, meta de médio prazo.

Já fiz o curso de sommelier internacional da FISAR (Federação Italiana) e estou cursando este semestre inteiro o curso de sommelier da ABS (seção Bahia) com a Wine Academy (Portugal). O WSET vem consolidar o aprendizado com um novo enfoque, mais uma escola do mundo do vinho: a inglesa.

Neste modulo foram degustados 12 vinhos de uma maneira bastante didática com os princípios básicos de harmonização. Eugenio Echeverria conduz o curso de uma maneira leve, fazendo o tempo passar rápido por demais! Ao final do curso é realizada uma prova com 30 questões e o resultado só sai 1 mês depois, pois são corrigidas na Inglaterra.

Para quem esta buscando educação na cultura do vinho é um curso muito bom e de formação continuada, não só na sommelierie como também no mercado dos vinhos em si.

De olho no WSET 2 agora. 😉

Acarajé e Abará com Vinho. Funciona?

Às vésperas do carnaval em Salvador a cidade respira isso: abadás, camarotes… Meu terceiro carnaval morando em Salvador, terceiro carnaval fugindo daqui nesse período. Definitivamente o carnaval daqui não faz “meu tipo”. No entanto a comida… é algo que me agrada até demais! Fazia algum tempo que não comia os corriqueiros quitutes daqui quando ontem, num desejo arrebatador, não pude fugir.

Eu não tenho conseguido mais ter uma refeição (almoço ou jantar) com refrigerante ou suco, pra mim ambos desfavorecem a comida. Tenho tentado colocar o vinho em mais ocasiões e quando não é possível a água tem funcionado. 😉 O acarajé e o abará são normalmente ótimos companheiros da cerveja mas por que não funcionaria também com vinho?

A escolha pra essa tentativa de harmonização foi um cremant rosé que conheci numa degustação realizada na Adega Tio Sam, aqui em Salvador. Achei que o rosé traria uma maior complexidade, do que um espumante normal, para acompanhar um alimento tão carregado em sabores: massa de feijão, camarão, vatapá. O frescor do espumante é imprescindível para a sensação do “limpar a boca” que precisamos após ingerir tamanha gordura, especialmente do dendê.

O vinho: Cremant de Limoux – Aimery Sieur D’arques Brut Rose

Trata-se de um corte de chardonnay, pinot noir e chenin. Aromas de frutas tropicais e um pouco de cereja. Perlage persistente. Ótima acidez e retrogosto com um tanto tostado, bastante elegante e harmônico, no nariz e na boca. Um ótimo espumante que agora, degustando pela segunda vez, percebo que nao fui complacente com ele.

Servimos o cremant bastante gelado e foi bebido fácil, fácil. Acompanhado da boa comida baiana, boa musica baiana (Gilberto Gil sempre!) e boa companhia baiana. Foi minha despedida de Salvador nesses dias de folia. 😉

* R$ 55 na Adega Tio Sam (Salvador/BA)

FRANÇA

Chianti Classico Le Ellere (Castello D’Albola) 2005

A ideia original pra hoje era um rosé. Mas para harmonizar com um filé de carneiro acompanhado de pure de mandioquinha (confort food total!) esse Chianti me pareceu uma melhor pedida, ou ao menos tentativa. Foi comprado numa ida à Perini e o preço foi o que chamou atençao à principio (R$ 45). Valeria a pena? Ou mais um barato que sai caro?

Chianti é uma DOCG italiana, da Toscana. Sao opçoes menos encorpadas aos potentes Brunellos di Montalcino, que também são elaborados com a casta sangiovese mas que tem alguns peculiaridades na vinificaçao como a passagem por mais tempo em carvalho.

Este chianti na taça é bastante límpido, lembrando um pinot noir visualmente. Muito aromático (dar um tempo de taça aos italianos é mandatário), aroma de frutas negras, um tanto de tostado (ele estagia 12 meses em madeira). Na boca taninos redondos com acidez média pra baixo, quase um perigo, ja demonstrando sua evoluçao. Acompanhou muito bem o carneiro, segurando a carga protéica sem se sobressair. Por sinal fiquei bastante curiosa por uma nova harmonização deste carneiro (rapidamente marinado no alho, pimenta, alecrim e vinho do porto) com um syrah jovem. Assunto para novos posts! 😉

O vinho é muito bom, e é sem sombra de dúvidas merecedor do selo “otima compra”, o primeiro do blog a receber o selo. Não achei lojas virtuais que os vendem mas existem outras linha de chiantis da mesma vinicola (www.albola.it), talvez mais fáceis de encontrar. Certamente vou vasculhar a Perini em busca de outros rótulos do mesmo produtor para experimentar.

Minha queda pelos italianos me faz adorar os duelos “Toscana vs Piemonte”. Brunellos vs Barolo. Chianti vs Barbaresco. Enfim… nessa peleja eterna nunca sai uma região vencedora, e isso é definitivamente o barato da experimentaçao.

* R$ 45 na Perini (Salvador/BA)

ITALIA

Dunamis Tom Rosé 2011

Recebi este vinho da assessoria de imprensa da vinícola Dunamis e realmente nao conhecia (aquela velha dificuldade em ter acesso aos vinhos daqui…).

O rosé é um vinho extremamente adequado ao calor que anda fazendo, e são vinhos que me agradam muito. Tanto pelas possibilidades de harmonização, quanto pelo clima que está propício a vinhos mais leves.

Este é sem dúvidas mais um bom rosé nacional que faz frente orgulhosamente aos famosos de provence. Elaborado com cabernet sauvignon, na taça tem uma cor que adoro: nem tão intensa quando alguns rosés do “novo mundo”, mas que nos diferencia dos franceses, que são mais para salmão do que verdadeiramente rosados. No nariz aromas de frutas brancas e um pouco de framboesa. O álcool (12 graus) apareceu um pouco no nariz, mas ele foi servido a uma temperatura ligeiramente mais alta (erro meu!). No geral os aromas são bastante elegantes. Já na boca tem um ótimo ataque, em nada se sente o álcool, o frescor é o mais marcante com a boa persistência final. Definitivamente um ótimo rosé, não só para harmonizações com frutos do mar mas, por que não, substituindo a cerveja sob o sol. É um vinho que, apesar da gradação considerável, se bebe muito fácil.

Minha crítica vai para a rolha, que nao consegui identificar o material sintético esponjoso do qual é feita e que fez vazar um pouco do vinho, guardado deitado em minha adega. Felizmente nao houve qualquer comprometimento. Talvez a screllcap funcione melhor. Fica a observação, quem sabe para as próximas safras.

Só posso terminar este post confessando que, até agora, os rosés nacionais me encantam muito mais do que os de Provence. E aí é opinião pessoal mesmo. Ponto pro Brasil! 😉

* R$ 25 em diversas lojas do Rio Grande do Sul

BRASIL

Vira-lata até quando?

Há algum tempo fui convidada para uma ação do Ibravin que acontece agora na semana do carnaval (a qual infelizmente não vou poder participar) e no mesmo dia havia lido uns comentários de alguém, também do “mundo dos vinhos”, criticando um certo patriotismo exagerado com o vinho brasileiro. Me peguei refletindo sobre esses dois opostos.

Não acho que devemos ser complacentes com o vinho brasileiro, como se fossemos “cafe-com-leite”. Na verdade nem acho que isso exista de verdade. O vinho brasileiro historicamente sofreu muito mais crítica do que crédito. E deve-se à critica uma grande contribuição para a evolução dos vinhos que temos hoje no Brasil. E isso continua.

O que me angustia não é uma “possível” complacência. Me angustia justamente o contrário. É essa mania, ou culpa do passado colonial, do brasileiro em geral achar que tudo que é de fora é melhor, é mais importante, de melhor qualidade. A conhecida síndrome de vira-lata.

Eu acredito piamente no fomento daquilo que é bom e que é produzido próximo a nós como forma de contribuir para o desenvolvimento da região, dos seus negócios e do seu povo. O Ibravin tem feito seu trabalho de apoio, desenvolvendo a marca do vinho brasileiro, provendo crescimento. Mas infelizmente sinto que as vinícolas não estão fazendo seu ciclo completo. Essa seria a minha critica ao vinho brasileiro.

É preciso QUALIFICAR as representações. As vinícolas estão faltando justamente na ponta da cadeia. TODOS os meus rótulos nacionais eu comprei diretamente com as vinícolas ou pela internet. A gente tem mesmo que se esforçar pra ter acesso aos bons vinhos daqui. Quase nunca se consegue pedir um vinho nacional num restaurante, as cartas não representam o Brasil (falo especialmente do meu meio onde circulo: Recife e Salvador), que quando tem vinhos nacionais são aqueles de sempre, da vinícola de sempre, que não me enchem os olhos.

Porque se o objetivo é criar o costume no brasileiro em beber vinho daqui é preciso mostrar o que temos de bom. Porque temos MUITOS, muitos vinhos bons. Os reserva e gran reserva da Boscato, as linhas TOP da Valduga, os espumantes Cave Geisse, os ótimos roses nacionais, os Lidio Carraro, os Rio Sol… enfim.

Por que muitos continuam bebendo franceses medíocres se poderiam degustar bons nacionais? Ainda há falta de informação, mas o consumidor brasileiro, mesmo o eventual, tem andado mais criterioso e curioso. Falta mesmo oferta. Os “reservados” da Concha y Toro já saíram há muito das cartas de vinho dos bons restaurantes, enquanto os vinhos brasileiros não tem ocupado o seu merecido espaço.

Eu sempre me pego pensando nessas questões todas. Pois tem algo que ainda não se encaixa… Se há um órgão de fomento e apoio (Ibravin) e há bons produtos, está faltando o que para o vinho do Brasil estar no restaurante aqui do lado?