Pinot noir Californiano

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Mais um pinot noir aparecendo por aqui. Agora um californiano de Napa. Isso pra mostrar minha atual insistência com a casta que um amigo ao defini-la chamou de “vinho tinto de mulherzinha”. Minimizando o caráter talvez misógino do comentário esta é a opinião meio que geral. Vinhos fáceis, elegantes, sem grande corpo, e que agradam à maioria. Mas pra mim está justamente aí o perigo.

O vinho: Beringer Pinot Noir 2007

Assim como o pinot da patagônia esse vinho está longe da expressão da casta na França. Claro que não dá pra colocar tanta fé num pinot de Napa, mas vale pela diversidade. Fala-se muito da qualidade dos rótulos da Nova Zelândia, que ainda não tive oportunidade de experimentar.

Esse é um vinho simples, de acidez um tanto desequilibrada, mais elegante do que o da patagônia, mas ainda assim nao configura uma boa compra para a casta. Continuo preferindo os pinot da borgonha, e não me refiro aos TOPs.

*U$ 25, www.beringer.com

FRANÇA

Um Chateauneuf-Du-Pape pra chamar de seu

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Esse Chateauneuf-Du-Pape foi um presente, daqueles de responsabilidade, onde quem presenteia diz: “Esse é o meu vinho!”. Nestas ocasiões lembro de uma das minhas aulas de sommelier onde aprendi que o “estilo” de cada um, aquilo que mais vai lhe aguardar num rótulo, é mostrado muito pela personalidade. E vice-versa. Bons e observadores sommeliers sabem usar disso com primor.

Desta vez mais uma tentativa de harmonização com pizza. Na Speciali que é pra não perder o costume da boa pizza e do bom serviço em Salvador.

O vinho: Chateauneuf-Du-Pape La Bernardine 2007

A famosa apelação do sul do Rhône traz o clássico corte de grenache, syrah e mourvedre com estágio de 12 a 15 meses em carvalho francês.

No nariz frutas negras maduras, tosta, fumo e especiarias. Álcool marcante, que nos fez baixar um pouco a temperatura de serviço. Em prova um vinho completamente diferente do padrão “novo mundo” e que os bordeaux tem reproduzido também. Muita complexidade, final persistente, elegante, taninos macios, boa acidez. No retrogosto além das frutas, um tanto de madeira e algo terroso.

Não é a toa que a melhor harmonização dele foi com a entrada, muito bem escolhida para este rótulo: brusqueta de funghi, shimeji e shitake. A pizza foi muito pouco para o vinho, que após a brusqueta reinou soberano e em grande estilo.

* R$ 230 www.mistral.com.br

FRANÇA

Quando a essência do vinho se perde…

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Queria muito acordar e perceber que toda essa defesa retórica da famigerada ~salvaguarda~ não passou de um sonho ruim.

Voltar a ter certeza que o vinho nacional vai se destacar, e conquistar os brasileiros, por sua QUALIDADE e não por imposição de barreiras à concorrência LEAL.

Tenho medo de estar em meio a um pesadelo. Um pesadelo onde os vinhos tornam-se ainda mais inacessíveis e com prateleiras lotadas apenas das vinícolas brasileiras DOMINANTES e seus vinhos medíocres.

Monopólio ou ditadura do vinho “made in Brazil“, desejam esses senhores?

Sou uma sonhadora mesmo. Sonhava com o vinho nacional (e nosso terroir!) fazendo frente legitimamente aos clássicos. Mas agora já não sonho mais. Acordei.

Ótimo Shiraz Australiano

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A syrah é uma casta que muito me agrada. Tem a carga aromática que tanto adoro e personalidade em prova. Pensar em carnes na brasa sempre me levam a pensar num bom syrah jovem. A combinação é quase sempre muito boa.

O vinho: Heartland Shiraz – Langhorne Creek/Limestone Coast 2008

Este foi escolhido em meio a uma carta de vinhos (quilométrica!) do Figueira Rubaiyat (SP). Eu vi a carta e nao fiquei feliz, tive raiva. Separados por país, e não por tipo, tem até índice de tão grande. Uma enorme sacanagem com o consumidor em geral. Vários vinhos riscados, que nao estavam disponíveis, tornando o passar de folhas um martírio. Uma espécie de “livro de vinhos” totalmente despropositado para um restaurante tão bom. Mas enfim, pra mim foi fácil definir o país, mas imagino que em muita gente dar até preguiça…

A opção de carne ao ponto e suculenta casou perfeitamente com esse syrah de muita elegância. Uma profusão de aromas em taça, frutas negras e vermelhas maduras, chocolate, especiarias. Em boca taninos redondos e ótima acidez, bom corpo e uma certa complexidade no retrogosto que muito me agrada. Esse vinho é o estilo “novo mundo” dos que mais me agradam. Merecidas 4 taças!

* R$ 73, www.grandcru.com.br

AUSTRÁLIA

Pinot da Borgonha

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Em contraponto ao pinot da patagônia de dias atrás veio este de borgonha. Claro que de um rótulo de cerca de R$ 140 num restaurante em São Paulo nao dá pra esperar um romanée-conti. Mas diante do que se espera de vinhos de pinot noir acredito que até os borgonhas mais simples acabam atendendo a contento.

O vinho: Pinot noir Bourgogne Roux Pere & Fils 2010

Este é translúcido e brilhante como é de se esperar. Cor muito aberta. No nariz bastante fruta vermelha ácida, morango e cereja. Na boca taninos domados, boa acidez, frescor e aquela elegância em corpo típica dos pinot.

Mais um ótimo rótulo pra acompanhar uma bela pizza. Foi nossa escolha novamente.

* R$ 88, www.vinhoszahil.com.br

FRANÇA

Vinho verde. Um vinho conforto.

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Aqueles dias em que tudo dá errado, que você vai longe nos pensamentos mais negativos possíveis. É nesses dias que a palavra conforto faz mais sentido. Amigos conforto, companheiro conforto, comida conforto, lugar conforto, conversa conforto. Discutir a formação paradoxal do ser humano é possível, mas nestes dias conforto é tudo o que a gente busca. E merece.

O vinho deste dia foi o simples, como pedia a conjuntura, mas eficiente vinho verde para acompanhar uma refeição igualmente leve de pescada amarela com molho de uvas verdes e alcaparras. Num dos lugares mais “conforto” de Salvador.

O vinho: Condes de Barcelos Vinho Verde 2010

Bastante cítrico e fresco no nariz, com abacaxi e maça verde. Presença de perlage bem delicada. Na boca uma ótima acidez que casou perfeitamente com o prato.

É no dia em que tudo lá fora dá errado que a gente encontra um vinho de R$ 16 que faz todo o sentido… Como diz o ditado: No vinho, a verdade! In vino veritas!

* R$ 16, www.adegabrasil.com

PORTUGAL

Pinot noir da Patagônia

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Por mais que a pinot noir nao seja uma queridinha minha, verdade seja dita, ela normalmente acaba sendo uma escolha mais versátil entre os tintos.

O vinho: Reserva Del Fin Del Mundo Pinot Noir 2009

A Patagônia é uma região que tem se destacado pela produção de bons pinot. O clima mais frio acolheu a cepa de complexo manejo e levou a tão isolada região argentina a entrar nas referências da casta.

Este exemplar me chocou pelo álcool. No nariz e em boca. Ao verificar o rotulo entendi, mas me espantei com os 14 graus. Aromas de frutas vermelhas maduras, faltando um pouco de frescor. Em boca taninos domados, boa persistência mas o desequilíbrio do álcool sempre a tona. É incrível como numa casta tão delicada esse álcool a mais sempre se mostra, nao tem jeito. Teria a safra de 2009 sofrido muito com o calor? Ou é realmente característica da região? Vou tentar degustar novas safras.

É um vinho razoável pra harmonizar com comida sem grande complexidade e também quando trata-se de escolher vinho para um grupo heterogêneo, onde um exemplar de pinot parece agradar a “gregos e troianos”. Embora seja importante ressaltar que este ainda está bem distante da tipicidade da cepa em sua terra natal, a borgonha.

*R$ 60 www.wine.com.br

ARGENTINA

Pernambuco. São Paulo. Chianti.

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Um reencontro após mais de dez anos tem um peso importante. Ainda mais considerando tratar-se de alguém com quem a gente conviveu tanto, por muito tempo. Um misto de nostalgia e curiosidade.

Pois bem, São Paulo brindou esse reencontro com um chuva de canivetes. Parecendo querer adiar mais uma vez, mas isso felizmente não seria suficiente. O local para esse brinde foi o muito bom restaurante italiano Botta Gallo. Clima descontraído, de tratoria mesmo, petiscos simples que todo mundo adora e as clássicas, e não tão clássicas assim, massas.

O que mais me chamou a atenção lá foi a riquíssima carta de vinho com apenas rótulos italianos, minha perdição. Muito legal em respeito inclusive ao conceito cultural de terroir. Nada é melhor para harmonizar com comida italiana do que os vinhos italianos! Lá eles servem inclusive vinhos em taça, promovendo e estimulando uma maior experimentação.

O vinho: Chianti Clássico Tenuta Sant’ Alfonso 2007

Fui clássica, e talvez básica, na escolha do vinho para uma ocasião tão especial. Mas naquele dia nada além da conversa interessava tanto. Um bom chianti seria o suficiente para dar pano de fundo a tantas histórias…

O vinho, como são normalmente os italianos, chegou um pouco fechado mas não demorou muito para abrir seus aromas (mas nada próximo daquela profusão de aromas do “novo mundo”). Esse 2007 em boca estava ainda bastante vivo. Boa acidez, taninos domados mas bastante presentes, boa persistência. De corpo ligeiro harmonizou muito bem com o nhoque de batata ao sugo.

Mais um clássico da sangiovese e que deu ainda mais cor a um reencontro já tão cheio de “nuances” e “estrutura”.

* cerca de R$ 130 no Botta Gallo, em SP

ITÁLIA

Um vinho de Coppola

A entrada de Francis Ford Coppola no mundo dos vinhos foi noticiada mundo a fora e a sacada de marketing que um label desses traz, o fez vender (e aumentar os preços de) muitos vinhos.

Confesso que quando vejo essas notícias de celebridades lançando “seus vinhos” nem me interesso muito pelo conteúdo. Me parecem vinhos carregados de marketing de vendas e ponto. Mas quando vi um rótulo do Coppola na Pizzaria Veridiana, em SP, achei que seria uma boa oportunidade de experimentar.

O vinho: Francis Ford Coppola Presents Rosso 2009

Este vinho é um corte de Zinfandel, Cabernet Sauvignon e Syrah. Na verdade foi o corte que primeiro me interessou, e não o Coppola. O vinho é inicialmente bem fechado aromaticamente, depois de um tempo de taça vai abrindo e revelando os aromas de frutas vermelhas e pretas, maduras. Em boca pensei tratar de um vinho mais macio pelo corte em si, no entanto o vinho mostra bem a personalidade da cabernet com taninos bem presentes. O vinho tem bom corpo e boa acidez mas esperava mais elegância neste corte. Harmonizou bem com a pizza, especialmente a de calabresa apimentada.

No fim a experiência valeu pra tirar um pouco do preconceito com os vinhos do Coppola. Se como cineasta ele é pra mim hour concour, nos vinhos ele ainda é um mero iniciante! 😉

*R$ 75, www.emporiomercantil.com.br

EUA

 

Californianos em foco

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Estar em São Paulo é passar por dúvidas cruéis: participo de uma degustação de rótulos franceses, italianos ou…americanos?

Escolhi o menos óbvio, claro! Na Smart Buy Wines fomos levados à Califórnia, especialmente Napa Valley, com seus vinhos e tipicidade. A loja, que é especializada em vinhos californianos, levou para esta degustação três rótulos de Napa: um chardonnay clássico da região, um cabernet em corte bordalês e um syrah.

Hoje os EUA são o quarto produtor mundial de vinhos, perdendo apenas para França, Itália e Espanha, o que justifica a importância que tem ocupado a cada dia neste mercado.

Os vinhos degustados, bem típicos do estilo americanos com muita extração e madeira, foram:

  • Chateau Montelena Chardonnay 2008: estágio de 10 meses em carvalho francês. O clássico chardonnay de Napa, R$ 160 (375ml)
  • Educated Guess Cabernet Sauvignon 2009: passagem de 12 meses em carvalho americano e francês. R$ 125
  • Novy Syrah 2009: estágio de 15 meses em carvalho francês. R$ 109

O sommelier da casa, Marcos Martins, também levou vários aromas naturais para o exercício das percepções olfativas em cada vinho. Didático e divertido. Engraçado como esse ambiente de vinhos propicia a integração das pessoas e como a identificação, através dos vinhos, é uma coisa forte.

Os vinhos da noite nem me encantaram tanto, mas trouxe de lá dois outros rótulos para experimentar, e novos companheiros de vinho para a posteridade!