E o vinho de garrafão?

Foi numa brincadeira entre amigos onde relembramos a presença do vinho de garrafão em nossas saídas de grana regrada (em Recife o mais famoso é, ou era, o Carreteiro) que surgiu este post.

O vinho chamado “de mesa”, de garrafão, difere do vinho chamado “fino” em diversos aspectos da vinificação em si, mas a grande diferença é que o vinho fino é produzido com uvas vitis vinifera, isto é, uva de se produzir vinho! Os vinhos de garrafão são produzidas com as chamadas uvas americanas, de mesa, isto é, uvas para se produzir suco de uva, afora isso existe também adição de açucar de cana ao fermentando dando aquele sabor adocicado (e enjoado!) dos vinhos de garrafão. Além da adição de água, aguardente, e demais adições e correções. Confesso que tenho imensa reticência em chamar de vinho essa “mistura fermentada” tamanhas diferenças na produção dos vinhos “de verdade”.

Há quem diga que existem produtores que fermentam não a uva mas o bagaço proveniente do suco extraído (e vendido como suco integral) para elaborar seus vinhos de garrafão. Se isto é verdade eu não sei, mas não tenho dúvidas de que para a produção desses vinhos devem ser utilizadas as uvas mais deterioradas, ou que não se prestam à produção de suco, tendo em vista o alto valor agregado ao suco de uva integral e o baixo valor do vinho de garrafão.

Fato é que os vinhos finos, objeto deste blog, representam não mais de 10% de todos os litros de produtos de uva (suco e vinho) produzidos no RS, enquanto os vinhos de garrafão representam mais de 60% desta produção.

A uva de mesa é de mais simples manejo, além de agregar mais valor em toda sua cadeia: fruta in natura, suco de uva, vinho de garrafão. Enquanto o vinho fino demanda muito mais investimento em linha de produção, tecnologia e complexidade no manejo pra produzir… vinho!!!

Muito se fala do papel do vinho de garrafão para o fomento do consumo do vinho fino. O consumidor deste vinho migraria gradativamente ao vinho “superior”, de verdade. Eu não sinto dessa forma, acredito que são produtos distintos e que não necessariamente um leva ao outro. Entendo que o mercado de uva e derivados busca sempre essa correlação mas o posicionamento de mercado dos dois produtos é bastante diverso. Entendo que o garrafão leva ao vinho fino assim como a cerveja ou a vodca, comportanto-se como uma bebida alcoolica como qualquer outra, de baixo custo e só.

Lembro que quando visitei uma vinícola antiga no RS, e hoje famosa pela produção dos seus vinhos finos, ouvi um dos responsáveis dizer que mantinham na sua linha o vinho de garrafão que foi o início de tudo, em gerações passadas. Que mantiveram porque o consumidor pediu. Achei romântica a escolha e de respeito à origem da vinícola, mas definitivamente o consumidor que hoje é o cliente daquela vinícola não se interessa pelo vinho de garrafão e o consumidor do vinho de garrafão não se interessa por aquela vinícola enquanto marca de qualidade. Talvez essa diversificação ainda haja entre os produtores por uma certa “insegurança” com a liquidez do vinhos finos, tão marcados por safras, mudanças climáticas, solo, terroir… afinal, verdade seja dita, o vinho de garrafão é um produto bem menos volátil.

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