Antiguas Reservas Cousiño Macul 1993

 

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Da visita à Cousiño Macul teve origem o rótulo que somente aparece hoje.

Em meio à beleza gélida da Santiago pela qual me apaixonei quando lá estive pela primeira vez em 2008, tive o approach com este vinho que me pareceu no mínimo interessante.

Confesso que não esperava encontrar comercialmente uma safra tão antiga em uma bodega do novo mundo como a Cousiño Macul, que produz esse rótulo há mais de 80 anos. Num tempo de instantaneidade, safras mais antigas só existem nas adegas de enófilos pacientes, em reservas privadas da vinícola, ou em sites de leilão. Hoje o consumo é quase que total “para imediato”.

É uma outra proposta vínica degustar um vinho com 20 anos de idade, o tempo neste caso faz um sentido diferente, não se trata de busca do auge, ou da expressão máxima do vinho. A maior significância é longevidade. Poucos acreditam na longevidade dos vinhos chilenos, que tem mercado obviamente focado nos vinhos prontos pra beber, muita extração, fruta e “maciez elegante” ao ser posto no mercado. Bons chilenos teriam auge em no máximo 10 anos. Diferentemente dos grandes clássicos que com 10 anos começam a ficar bons. Ah, os Barolos!!! Me faz lembrar o excelente documentário Mondovino e sua romântica discussão sobre o desenvolvimento do mercado do vinho, abrindo mão da tradição em favor da produção “massificada”, “enlatada” e “parkerizada“.

“Nem tão ao céu, nem tão ao mar” diria eu. Que nesta discussão vivo me contradizendo, pois ora me defino ansiosa e incapaz de guardar garrafas por anos a fio, mas me vejo tão apegada a velha moda, a essência romântica do vinho, bebida viva, surpreendente por natureza. Cada lugar, cada safra, cada estilo, um vinho diferente.

Ao abrir essa garrafa de exatamente 20 anos atrás, onde provavelmente a vinícola era mais apegada ao estilo bordalês, foi inevitável pensar no que teria sido aquele ano, provavelmente uma boa safra (safra chilena de ano ímpar), mas especialmente o que de lá pra cá definiu minha vida. Se naqueles idos de 1993 eu sequer imaginava que seria uma apaixonada pelos vinhos, neste 2013 repenso o caráter do mesmo no meu contexto. E como será que a safra 2013 deste mesmo rótulo, muito presente no mercado brasileiro, se comportaria em 2033?

O vinho: Antiguas Reservas Cousiño Macul 1993

A rolha deste varietal de cabernet sauvignon demonstrava alguma deteriorizacão mas sem chegar a ter havido vazamento. Em taça a linda evolução de cor, um granada com franco halo de evolução. Já sem intensidade de cor, bastante translúcido, típico do envelhecimento em garrafa. Aromaticamente tímido, e não evoluiu no decorrer da degustação, mereceria ter sido decantado horas antes. :( Em boca excelente persistência, boa acidez, taninos elegantes porém contraditoriamente muito vivos. Maciez não define esse vinho que teria como perfeito paralelo a palavra evolução.

O passar dos dias, dos anos, a espera incansável em garrafa, nos brindou com a possibilidade desta degustação. A paciência daquele que o produziu e guardou nos fez poder experimentar a evolução da provável e inquietante rusticidade desse vinho no ano da sua safra. O tempo que vai aparando ativamente as arestas, mas que não pode ser demasiadamente longo sob pena de nos entregar um vinho já morto. “Nem tão ao céu, nem tão ao mar…”

* US 70, na Cousiño Macul, Santiago

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