A temporária supremacia portuguesa

Vida de enófilo fora do ninho é um pisar de ovos. Um eterno se adaptar que às vezes sinto o exigir retirar estrategicamente o vinho da taça, e brindar com a bebida preferida do grupo. Mas também é legal perceber o interesse geral por vinhos, um desconhecido que gera um certo fascínio, e aos poucos a possibilidade de colocá-lo mais no dia-a-dia. Quem sabe até uma mini confraria? 🙂

Em Angola a quantidade de rótulos portugueses até assusta quem procura algo além. Talvez o preço mais agradável acabe levando os brasileiros a ter sempre aqueles rótulos lusitanos que são mais caros (e sempre honestos!) no Brasil. O rótulo deste noite foi mais um português, alentejano, que foi escolhido na adega amiga por um motivo simples: safra de 2006. Um corte de touriga nacional, alicante bouschet e syrah, vinho simples sem grandes pretensões, pra ser bebido jovem e que implorava por ser aberto.

O vinho: ROCIM 2006

Como era de se imaginar o vinho já estava em franca decadência. O álcool de 14 graus segurou um pouco a onda do envelhecimento mas impossível não sentir aquele toque de frutas vermelhas já passadas e uma madeira já bem enjoativa. Na boca taninos quase mortos de tão macios, acidez um tanto chata, corpo ligeiro e o álcool sobrando um pouco. Percebe-se que era um honesto, devendo ser bem redondo quando jovem, mas que definitivamente passou do tempo.

Esse vinho acabou por lembrar-me de uma aula do curso de sommelier onde na degustação de um rótulo como este eu digladiei contra a potência perdida (o não deixar envelhecer aquele que não tem estrutura para tal) enquanto um confrade adorou a ~elegância~ quase chata de um rótulo tão sem expressão. Lembrei que isso é vinho. Que vinho em prova (tanino, acidez, estrutura…) não significa gosto pessoal. E que quando se fala de “gosto” não há o que questionar, mas sim fomentar a experiência do tal “gosto”.

Bem, mas se o vinho não foi dos melhores, a possibilidade de aumentar o numero de enófilos em Luanda foi animador o suficiente para superar o vinho. 😉

* € 8, www.domvinho.com

PORTUGAL

A eterna busca por rieslings

20120729-200010.jpg

Estou no Brasil e por mais que esteja fazendo um bom friozinho, priorizando os tintos em todas as escolhas, ainda sim há bons espaços para os brancos.

Minha grande dificuldade com os brancos e espumantes é muito mais no convencer os convivas pela escolha desses rótulos. A grande maioria dos bebedores eventuais sempre prefere um tinto a um branco, mesmo que a harmonização seja sofrível. Em jantares, muitos amigos não entendem porque quase nunca peço aquele “grande tinto”, acabo sempre escolhendo um tinto mais versátil e até sugerindo bons brancos, que casariam mais fácil com a variância dos pratos. Muitos não entendem que grande tintos pedem refeições a altura pois são harmonizações mais complexas, ou então um degustar sem comida, minha preferência.

Fui a um ótimo restaurante japonês na minha passagem pelo Rio de Janeiro, o Yume, e finalmente consegui tirar a cerveja e a caipiroska da mesa, pedida certa com esse tipo de comida. Escolhemos um riesling de mosel pra tentar harmonizar com os sushis e sashimis, servidos muito frescos, e com a saudade acolhedora de quem está longe…

O vinho: Selbach-Oster Riesling Trocken 2009

Vinho bastante fechado aromaticamente, frutas cítricas, maça verde e pêra. Na boca um vinho ligeiro com boa acidez, muito leve e refrescante. Álcool equilibrado porém faltou um pouco mais de personalidade, por vezes pensava estar degustando um sauvignon blanc, meu karma.

Por fim o vinho acompanhou bem o salmão fresco, assim como os outros acepipes, e serviu de aperitivo perfeito para a conversa noite a dentro. E assim eu vou me familiarizando cada vez mais com o Rio de Janeiro. 😉

* R$ 150 na carta de vinhos do Yume

ALEMANHA

Syrah argentino

20120428-220930.jpg

Esse vinho foi escolhido em meio à uma carta de vinhos bem enxuta, pra não dizer restrita, num restaurante em Trancoso. A escolha seria quase certa já que a syrah é sempre uma boa opção em grupos heterogêneos mas que espera um tanto a mais de corpo no vinho.

O vinho: Callia Magna Syrah 2009

A harmonização foi com massas e pizzas porém o vinho não acompanhou. Em taça uma bela cor púrpura mas já no nariz não mostrava muito a essência da syrah, aromas tímidos de frutas maduras e tostado da barrica, mas sem a “picância” e chocolate típicos da casta, havia também álcool sobrando no nariz. Baixamos um pouco a temperatura, escondendo o álcool, mas deixando o vinho ainda mais tímido aromaticamente. Em boca boa acidez, taninos em forma mas um amargor residual que incomodou e tirou-lhe qualquer elegância. O álcool também sobra na boca.

Não me parece uma boa pedida para um syrah, principalmente se comparado ao último australiano que degustei.

R$ 53, www.baccos.com.br

ARGENTINA

Pinot noir da Patagônia

20120319-170350.jpg

Por mais que a pinot noir nao seja uma queridinha minha, verdade seja dita, ela normalmente acaba sendo uma escolha mais versátil entre os tintos.

O vinho: Reserva Del Fin Del Mundo Pinot Noir 2009

A Patagônia é uma região que tem se destacado pela produção de bons pinot. O clima mais frio acolheu a cepa de complexo manejo e levou a tão isolada região argentina a entrar nas referências da casta.

Este exemplar me chocou pelo álcool. No nariz e em boca. Ao verificar o rotulo entendi, mas me espantei com os 14 graus. Aromas de frutas vermelhas maduras, faltando um pouco de frescor. Em boca taninos domados, boa persistência mas o desequilíbrio do álcool sempre a tona. É incrível como numa casta tão delicada esse álcool a mais sempre se mostra, nao tem jeito. Teria a safra de 2009 sofrido muito com o calor? Ou é realmente característica da região? Vou tentar degustar novas safras.

É um vinho razoável pra harmonizar com comida sem grande complexidade e também quando trata-se de escolher vinho para um grupo heterogêneo, onde um exemplar de pinot parece agradar a “gregos e troianos”. Embora seja importante ressaltar que este ainda está bem distante da tipicidade da cepa em sua terra natal, a borgonha.

*R$ 60 www.wine.com.br

ARGENTINA

Monte Velho 2009

Esse é daqueles vinhos que inundam as prateleiras dos supermercados Brasil a fora. Antes mesmo de embarcar no universo dos vinhos eu tinha uma certa aversão a ele por isso, o rótulo não ajuda e ele sempre teve um preço relativamente baixo. Sempre me pareceu um vinho ruim. Era meu “chute” intuitivo.

Dias desses resolvi dar uma oportunidade a ele. Por um simples motivo. Descobri que aquele vinho que sempre me causou repulsa nas gôndolas é uma linha da Herdade do Esporão, grande grupo português, de grandes vinhos. Descobri que aquele rótulo preto estranho carregava um sobrenome de peso.

OK. O vinho é barato e de “entrada” da Herdade do Esporão, e por isso deveria ser um vinho correto e nada mais. Mas… como é ruim! Álcool que incomoda, quase que sem aromas, dei tempo de taça esperando que abrisse mais, mas o vinho só demonstra álcool. Na boca tem um retrogosto amargo muito desagradável que me fez pensar que o problema seria a comida. Parei de comer, bebi água e o vinho era o mesmo. Deselegante e de certa forma desarmônico. Tanto no nariz como na boca. Um corte clássico português de aragonês, trincadeira e castelão que infelizmente não vale sequer uma nova tentativa.

Às vezes (quando não há riscos envolvidos) é bom pormos nossa intuição à prova, porque muitas vezes ela erra. Fato! Mas pra mim, no caso desse vinho, ela é que estava certa. Desde sempre!

* R$ 32 na www.adegacuritibana.com.br

PORTUGAL

E o riesling que deveria estar aqui?

20120116-081136.jpg

A grande questão nesse vinho foi se ele merecia duas ou apenas uma taça na avaliação. Tudo bem que ele veio na seqüência do Amarone, mas num outro contexto.

O vinho: Dönnhoff Riesling Trocken 2009

Seria um vinho pra acompanhar uma comida leve, e eu estava na pilha por um riesling. No restaurante Rascal esse era o único riesling da carta de vinhos, um riesling alemão. Nao tinha como duvidar. Mas… que fracasso. Como riesling ele era um razoável sauvignon blanc. Eu ainda insistia: “calma, vamos dar um tempo em taça para ele abrir”. Que nada! Apesar de aromático, e sem o aroma de querosene característico de muitos rieslings e que me desagrada (tem aquela questão de ser ou não um defeito), faltava a potência aromática tão típica e famosa dessa casta. Na boca era ligeiro, sem grandes atrativos. Ainda faltava um tanto de acidez, nem frescor suficiente ele trazia.

Pra mim esse vinho tem quase defeito na vinificação. Nao mostrou a característica do varietal. Mas como pode ser um blend com outras castas, nao tinha isso no rótulo, achei por bem lhe conceder 2 taças. E tenho certeza que fui boazinha, complacente, coisa que normalmente não sou. Talvez tenha sido a influência do Amarone anterior. 😉

* R$ 114 no Rascal (São Paulo)

ALEMANHA

Argentino no Natal Pernambucano

20111224-221314.jpg

Depois de algum tempo morando em Salvador/BA parece que voltar pra “casa” tem sempre aquele gostinho nostálgico como se estivesse tãoooooo distante. E o Natal é um momento de estar em família! Mas é engraçado como nestes momentos muita gente simplesmente “esquece” o motivo do feriado (não sou religiosa, mas agregar ao Natal um tanto das reflexões de Jesus Cristo seria o mínimo pra dar significado a esta data né?).

Voltemos ao foco. Em Recife, comidinha da mamãe. Ceia com peru e bacalhau. O meu desprendimento de Natal veio do vinho, logo o vinho! Não trouxe vinho da minha adega, aqui ninguém bebe vinho, e não tive coragem alguma de encarar lojas em dia de Natal. Tive que me contentar com o branco argentino que veio numa “cesta de Natal”. Expectativas mínimas. Mas que vem atender minha vontade didática de avaliar vinhos mais simples e analisar o famigerado “custo-beneficio”.

O vinho: Select Pampas del Sur – Chardonnay/Chenin Blanc 2010.

Trata-se de uma “segunda linha” do grupo argentino Trivento, com 50% chardonnay e 50% Chenin Blanc. A cor é um dourado bem claro com toques esverdeados. No nariz você tem que se esforçar bastante para sentir algum aroma. Na boca uma acidez desequilibrada, vinho agressivo com retrogosto amargo. Vinho deselegante. Nao seguiu a refeição, foi abandonado. E digo que não vale o preco, melhor comprar cervejas com o valor dele.

No fim do jantar intimista a conclusão foi de que, na mesa pernambucana de hoje, o único argentino que se comportou a altura foi o alfajor Havanna, que veio de Mar del Plata, pra satisfazer minha fissura por este doce, e acompanhar o café! 😉

20111224-221623.jpg

*cerca de R$ 20

ARGENTINA

Um espumante e uma tarde de sábado

20111218-103344.jpg

Dom Cândido Brut. Esse foi o espumante de um sábado lindo, céu azul, almoço num lugar maravilhoso (Baby Beef Gamboa, em Salvador/BA), vista pra baía de todos os santos, comida impecável e o melhor: na companhia de amigos!

A entradinha de paes e pastas, assim como o bom tempo, pediram um espumante. Escolhi o Dom Cândido pois queria um nacional, e já conhecia os bons tintos da vinícola. Ninguém quis me acompanhar. “Ah Gabi… Espumante só pra brindar no ano novo, prefiro uma boa Baden Baden agora”. Ok, segui sozinha na degustação na expectativa de surpreender.

Decepção. Eu insisti mas realmente este é um espumante para um brinde e só! Perlarge grosseira, o rótulo nao informa se charmat ou champenoise mas quando aberta a garrafa pensei tratar-se de um refrigerante. Aromas altamente escondidos tinha que fazer um esforço monstro pra aspirar e sentir algo, e o pior de tudo: acidez fraquíssima, o que tornou o espumante chato, muito chato. A sensação nao era a de estar tomando um espumante brut, a doçura, sem acidez, se sobressai. Enjoei. Eu só vejo esse espumante em brindes ou como aperitivo, logo substituído, sem acompanhar comida.

Acompanhou muito mal a entrada e foi completamente desconsiderado na escolha do prato principal, nao valia o esforço. Fomos de carne vermelha e a companheira mais acertada: a Baden Baden.

Tem dias que você nao acerta no vinho, ossos da experimentação. Amigos certos, vinho errado. O vinho a gente troca. Já os amigos… ah os amigos, se forem “errados” estragam ate o Chateau Petrus que tinha na adega do restaurante! 🙂

* R$ 34 (www.meuvinho.com.br), R$ 82 no Baby Beef.

BRASIL