Shiraz autraliano e comida peruana

Esse foi mais um rótulo degustado em minha estada no Peru. Harmonizado com muitas conversas, risadas e a ótima comida do restaurante Central,de Lima.

O vinho: The Stump Jump 2008

Nosso TOP cicerone local reservou-nos uma mesa fantástica, praticamente dentro da cozinha, de onde acompanhávamos o desenrolar frenético de um grande restaurante peruano. Comida contemporânea mas com FORTE presença da tradição local. Fiz questão de pedir uma pastinha de aji pra acompanhar. Bela e completa carta de vinhos e até uma carta de piscos eles tem. Pães, manteigas, chocolates, etc, tudo produzido no restaurante onde à mesa nos apresentam uma “degustação de sais”, 4 tipos. Uma maravilha! Serviço impecável, apresentação dos pratos primorosa e uma “saideira” com pisco sour, chicha morada e piña colada em forma de sobremesa.

O vinho é bastante aromático em especiarias, como manda a syrah, e fácil, macio. A grenache entra com força no corte (50%), como os típicos do Rhone, que tem também mourvédre. Sem grande complexidade. Harmonizou também fácil com o prato de carneiro, mas verdade seja dita, o carneiro preparado em cocção lenta quase desmanchando na boca sobressaiu, e muito, ao vinho. Mas quem se importa? 😀

Falei pouco do vinho né? É porque naquele dia ele foi mesmo figurante. Diante de uma despedida de Lima, num restaurante como o Central, não havia mesmo como ele ser o protagonista!

* 120 soles (aprox. R$ 78) no Central, Lima

AUSTRÁLIA

Robert Mondavi Private Selection 2006

Esse foi um dos vinhos degustados no Peru numa (des)harmonização bem louca. Eu naquela sede de experimentar acabei nao me prendendo tanto a uma harmonização perfeita. Rolou de tudo com esse vinho, mas o prato principal foi cuy com papas, que ele acompanhou adequadamente.

Um Robert Mondavi Private Selection 2006, elaborado com predominância da cabernet sauvignon (há também, em pequeno percentual, syrah, merlot e outras castas para equilibrar o blend). Em sua perfeita forma! Se tiver um 2006 na adega deguste logo! Sob pena de experimentar depois um vinho morto.

Começamos com o vinho, para ao menos a avaliação dele ser livre de uma harmonização duvidosa. O vinho é bem redondo, bom corpo, taninos macios e acidez baixa, um tanto perigosa, (minha eterna obsessão pela acidez), mas com toda a robustez que se espera de cabernet. Uma boa persistência olfativa e também na boca.

Trata-se de um vinho correto, mas bem característico da “parkerizaçao“, com muita extraçao de fruta madura. Um pouco mais de complexidade lhe cairia muito bem!

* R$ 85, www.vinhocracia.com.br (safra 2007)

EUA

 

Dunamis Tom Rosé 2011

Recebi este vinho da assessoria de imprensa da vinícola Dunamis e realmente nao conhecia (aquela velha dificuldade em ter acesso aos vinhos daqui…).

O rosé é um vinho extremamente adequado ao calor que anda fazendo, e são vinhos que me agradam muito. Tanto pelas possibilidades de harmonização, quanto pelo clima que está propício a vinhos mais leves.

Este é sem dúvidas mais um bom rosé nacional que faz frente orgulhosamente aos famosos de provence. Elaborado com cabernet sauvignon, na taça tem uma cor que adoro: nem tão intensa quando alguns rosés do “novo mundo”, mas que nos diferencia dos franceses, que são mais para salmão do que verdadeiramente rosados. No nariz aromas de frutas brancas e um pouco de framboesa. O álcool (12 graus) apareceu um pouco no nariz, mas ele foi servido a uma temperatura ligeiramente mais alta (erro meu!). No geral os aromas são bastante elegantes. Já na boca tem um ótimo ataque, em nada se sente o álcool, o frescor é o mais marcante com a boa persistência final. Definitivamente um ótimo rosé, não só para harmonizações com frutos do mar mas, por que não, substituindo a cerveja sob o sol. É um vinho que, apesar da gradação considerável, se bebe muito fácil.

Minha crítica vai para a rolha, que nao consegui identificar o material sintético esponjoso do qual é feita e que fez vazar um pouco do vinho, guardado deitado em minha adega. Felizmente nao houve qualquer comprometimento. Talvez a screllcap funcione melhor. Fica a observação, quem sabe para as próximas safras.

Só posso terminar este post confessando que, até agora, os rosés nacionais me encantam muito mais do que os de Provence. E aí é opinião pessoal mesmo. Ponto pro Brasil! 😉

* R$ 25 em diversas lojas do Rio Grande do Sul

BRASIL

Um Cabernet nacional com Bode. Harmonizou?

Recife está “em polvorosa”. Faltando uma semana para o carnaval, com mil prévias acontecendo, andar de carro pela cidade pode ser um teste à paciência, nunca se sabe em qual ruazinha está saindo mais um estandarte. Eu já não me envolvo tanto nesse clima (tô velha), vou pra Recife mais pra matar outras saudades…

Sou pernambucana, e pernambucano que se preze gosta de bode! 😀 Em Salvador é meio complicado de achar bons lugares, realmente não faz parte da cultura local, já em Recife boas opções não faltam e eu naquela saudade do bode com feijão verde (de verdade!) sai com o objetivo claro de matar a vontade!

Fomos ao Entre Amigos, “O Bode”. Importante frisar: meus companheiros de mesa não bebem vinho. Olhe, que triste sina de ter que ou beber refrigerante/suco ou ficar na água. Eu SEMPRE durante as refeições sinto necessidade de um vinho, força do hábito, mas pouquíssimos lugares tem opção de taça ou meia garrafa. Hoje, por sorte, havia uma opção em garrafa de 250ml e não pensei duas vezes. Por sinal, a carta do “Bode” é bem interessante, especialmente se levarmos em consideração o caráter mais “bar” que o lugar sempre teve.

É claro que não dá pra esperar muito de vinhos em garrafas menores. Normalmente as vinícolas (quando as tem) engarrafam apenas a versão de “entrada”, de vinhos pra serem bebidos jovens. Mas imagino que essa deva ser mesmo a proposta desses vinhos: tornar hábito o consumo cotidiano, saudável. Quem sabe um dia tirar os refrigerantes da mesa… O vinho de hoje tem tanto essa proposta que no rótulo não tem nem a safra. Fui buscar na garrafa o carimbo de data de fabricação, um vinho da colheita de 2011, de Flores da Cunha/RS.

O vinho: Oremus Cabernet Sauvignon 2011

Ele só tem 12 graus de álcool, mas chega a incomodar um pouco no nariz. Baixar a temperatura um pouco mais (em Recife está um calor senegalês) teria ajudado um pouco. É um vinho bem “aguado” na taça, mas bastante aromático, com frutas vermelhas maduras. Na boca é bem ligeiro, boa acidez, fácil de beber. Mas mostra de cara ser um cabernet, pois se fosse um merlot com tanta característica de maturação teria taninos quase que sem graça. Posso dizer que me surpreendi com o vinho, que afinal funcionou muito bem com o bode assado (e delicioso). Nada melhor do que poder harmonizar um almoço despretensioso, é tirar um pouco dessa pompa esnobe que costumam dar ao vinho. E foi essa a “despedida” de Recife desta vez.

Fica aqui o apelo aos restaurantes que tenham em suas cartas de vinhos algumas opções (sempre jovens!) dos vinhos em garrafas menores. Ajuda a fomentar o consumo responsável, especialmente quando o objetivo do vinho não é de “encontros sociais”, mas de simplesmente acompanhar (a altura) uma refeição.

Ah! E já que pra matar a saudade não dá pra trazer as pessoas, ao menos o bolo de rolo coube na mala. 😉

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* R$ 12,90 garrafa de 250ml no “Bode”

BRASIL

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Um rosé de Provence

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Vou confessar que nunca havia degustado um verdadeiro rosé, de Provence. A oferta de rosés no Brasil é bem restrita e nós acabamos por restringir ainda mais as ocasiões para degustá-los.

Outro dia, de maneira inédita, um amigo defendeu seu gosto pelos rosés e fiquei refletindo sobre a vida ingrata que esses rótulos levam. Como verdadeiro meio termo, paradoxalmente acaba mais se restringindo do que se ampliando. Quem quer um tinto nunca vai abrir mão dele em favor de um rosé. Já quando o branco se adequa mais, poucos trocam ele por um rosé.

Eu gosto muito da cor e da complexidade que ele agrega ao que seria um branco, e é mesmo mais versátil nas harmonizações. O rótulo de hoje foi degustado sem comida e sob o sol. 😉

O vinho: Domaines Ott Chateau de Selle Rose 2010.

Elaborado com Cabernet Sauvignon, Grenache, Syrah e Cinsault (também conhecida como Hermitage), o vinho frustou um pouco. Na taça ele é um salmão, bastante límpido, diferente dos rosés de fato rosados. No nariz ele é muito elegante mas sem tanta persistência, bastante fruta branca e um pouco floral. Com 13 graus de álcool, na boca achei ele meio sem ataque, considerando tratar-se de um rose de Provence vinificado com castas tão robustas. Faltou a acidez mais marcante no final (estou com a sensação de que a acidez tem sido uma espécie de divisor de águas para o meu gosto pessoal). A persistência é média.

É um bom rosé para bebericar despretensiosamente, com comida leve, muito leve, sem grandes firulas. Só não sei se vale a pena pelo preço dele no Brasil, não o encontrei em nenhuma loja on-line nacional.

* $ 39 na www.wine.com (não vende para o Brasil)

FRANÇA

No sábado, a velha carmenere

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Nada como um sábado de sol para arrebatar uma noite de sexta ingrata. Tudo bem que nem foi um dia de sol e ainda teve trabalho. Mas um almoço tardio num dos lugares que mais adoro em Salvador já foi suficiente para levantar o dia.

E eu fui clássica. Clássica e simples. Fui sem medo de errar na casta que pra mim significa uma palavra: conforto! Devotei durante muito tempo uma paixão intensa pela carmenere. E há bastante tempo não a trazia pra mesa, meio que evitando aquela presença que foi tão massante nas minhas escolhas.

Mas hoje era o dia dela voltar a tona, de maneira singela.
Vinho conforto.
Lugar conforto.
Companhia conforto.

O vinho: Carmen Carmenere 2009.

A Carmen foi a primeira vinícola a trazer de volta a carmenere, que hoje é a casta símbolo do Chile. Esse é o vinho de entrada deles. Selado com screwcap denotando o caráter jovem, pra ser bebido jovem.

Cheirei o vinho incansavelmente meio que lembrando daquele aroma tão frutado, frutas vermelhas maduras especialmente, dos vinhos do “novo mundo”. Quando finalmente bebi o primeiro gole, sorri. Sorri e brindei como quem reencontra um velho conhecido. Na boca é um vinho ligeiro, taninos macios, acidez equilibrada e aquele retrogosto que conhecia bem. Este é um vinho fácil, correto, sem grande complexidade. Acompanhou bem as entradinhas mas com o beef de tira no ponto, do Baby Beef da Gamboa, foi perfeito.

Tem dias que tudo que a gente precisa é isso. Se recuperar. Nada de grandes pretensões. E este Carmen de hoje se encaixou mais que perfeitamente. Voltei pra casa depois de conversas leves, amenidades, risadas e 3 porta-vinhos que ganhei de presente. Nada mal… 😉

* R$ 40 na www.adegacuritibana.com.br

CHILE

Bordeaux: Chateau Haut-Bergey 2003

“Gosto, cada um tem o seu.”

Foi assim que iniciou a discussão em torno desse vinho. Degustado em trio perguntei, antes da minha impressão, o que achavam dele. A adoradora da França, foi extremamente parcial: “Adorei. Adoro os bordeaux!”. O outro meio sem saber como avaliar falou: “Gostei. Não gosto de vinho ~velho~ mas gostei desse”. Oi?

Nada melhor do que um bordeaux como segundo vinho do ano para duelar com o italiano da noite anterior. Mas… Perdeu feio! 😛

Eu tinha criado uma certa expectativa em torno deste vinho pois já havia lido avaliações muito positivas em outras safras. Corte bordalês com apenas cabernet sauvignon e merlot. O vinho tem uma cor granada, já demonstrando a evolução dele. Aromas um tanto fechados, cujo tempo de taça nem favoreceu tanto. Tem um aroma herbáceo bem característico, o que me desagrada um pouco. Já os taninos são bem macios, a acidez equilibrada e boa persistência. Na verdade é um bom tinto, mas a meu ver faltou uma certa complexidade, típica dos bordeaux. Acredito tratar-se de uma safra já PRONTA, passando de pronta. Me preocupou até as duas garrafas que ainda restam na adega.

Ao menos fiquei feliz porque o vinho agradou aos meus companheiros de taça e rendeu boas conversas, mas a mim ficou um pouco a frustração por um bordeaux sem tanto brilho… Realmente, gosto cada um tem o seu. E no duelo Italia versus França, deste início de 2012, a Itália saiu bem na frente!

*não achei referência atual de preço, mas paguei R$ 115 há seis meses na www.vinistore.com.br

FRANÇA

Viu Manent Reserva Chardonnay 2010

O calor senegalês que anda fazendo neste trópico que habito relembra todo o tempo que o verão está aí, e claro, desfavorece a escolha dos tintos.

O rotulo de hoje foi escolhido pra não errar. A gente sempre sabe que os vinhos da Viu Manent são boas pedidas. Como ainda não tinha experimentado o chardonnay considerei boa escolha para um almoço de fim de tarde e tendo em vista as “compactas” cartas de vinhos de restaurantes.

ADENDO. Preciso fazer um comentário OFF a respeito do restaurante: Risoteria Terra Brasil, em Salvador/Bahia. Lugar: agradável, clima de bistrô. Atendimento: bom, sem frescuras. Serviço: muito bom, mesa, taças, etc. Comida: muito boa. Preço: caro, mas dentro dos padrões para lugares similares. FRUSTRAÇÃO: as porções são muito pequenas. Donos de restaurantes têm que entender o princípio daquilo que vendem e principalmente adequar aquilo que é vendido ao preço que praticam. Sabemos que risoto na Itália é sinônimo de prato único (fora os antepastos) e que por isso devem servir bem. Eu sinceramente não entendo como um restaurante que fez tudo correto (o mais difícil, eu acho) erra em algo tão primário. As porções servidas não atenderiam os homens da mesa, ou seja…

Mas voltemos ao vinho! Trata-se de um Chardonnay com participação de Viognier no corte (4%). Vinho corretíssimo. Vivo, aromático. Banana sobressai, mas com toques dos cítricos e melão. Na boca tem inclusive um toque amanteigado que nos fez pensar em passagem por madeira, mas de fato não há estagio em barrica. Retrogosto mineral e acidez na medida, mostrando que foi ótima escolha para acompanhar os risotos de camarão experimentados: camarão com gengibre e camarão com nozes e gorgonzola. O vinho acompanhou bem as brusquetas de entrada, os tomates não estavam ácidos. Já a harmonização com o risoto de camarão com gengibre foi perfeita, vinho e prato em paridade na harmonização.

Esse chardonnay se mostra elegante para acompanhar a altura nossos pratos (e o calor!) de verão, não nos privando do prazer de degustar um bom vinho mesmo com o termômetro acima dos 30°C. 🙂

*R$ 40

CHILE

Rosé Luiz Argenta 2011

Sendo este o vinho da harmonização com sopinha do ultimo post, aproveitei enquanto cozinhava para degustar somente o vinho e perceber suas nuances.

Comprei esta garrafa na propria vinicola, na cidade de Flores da Cunha/RS. A visita a vinicola já valeria a pena só pela construção em si. Engenheira mode on. Encrustrada em rocha, a cave é belíssima realmente. Vinhos bem feitos, e até algumas surpresas: um “amarone” brasileiro estaria sendo “concebido” por lá? Vamos aguardar… Inclusive, na avaliação nacional dos vinhos deste ano (safra 2011) o Merlot Luiz Argenta ficou entre os 16 melhores vinhos.

Esse é o rosé “amostrado”, corte de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot e Syrah. Tenho que confessar que a garrafa me chamou muito a atenção. Afinal o design também conta quando lembramos das garrafas padronizadas que dominam o mercado. Mostra uma preocupação extra. 🙂 O enologo da vinicola, Edegar Scortegagna, quando foi falar da vinificação frisou também o tempo de permanência das cascas para a obtenção da cor pretendida. Realmente a cor do vinho é rosada e não salmão como muitos rosés.

Mas vamos ao que realmente interessa. O vinho é bom? Muito aromático. Aroma de morango e também frutas cítricas, um pouco de flores também. Acidez maravilhosa, denunciando a pouca idade do vinho, mas especialmente mostrando a que veio: um rosé jovem, com frescor, sem firulas e que acompanharia muito bem os famosos frutos do mar mas também carnes menos condimentadas, grelhadas.

Vou falar a verdade, pra mim esse rosé tem algo bem especial: mostra que aqui no Brasil temos sim rosés de VERDADE. Sem essa necessidade de produzir vinhos roses doces e “maquiados” de cor-de-rosa sob o falso pretexto de que são vinhos “menos sérios”. E isso tem a ver com a qualificação do consumidor, além do visivel desenvolvimento das vinícolas da Serra Gaucha. Acredito que estamos num bom caminho!

* R$ 27 (www.luizargenta.com.br)

BRASIL