Ernesto Catena: Tikal Amorio 2010

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O vinho de hoje vem com um lag temporal imenso, tão grande que nem sei ao certo porque aqui está. Talvez tenha entrado numa de retrospecto vínico, e lembrar que este vinho simplesmente não achou seu espaço no blog me angustiou um tanto. Talvez tenha sido saudade, essa velha tirana que nos assombra na calada da noite, ou mesmo na intensidade do dia a dia. Talvez tenha sido a latente sensação de injustiça por não o ter postado. Ou um misto de tudo isso que me fez tirar esse, e o vinho da próxima postagem, do limbo dos grandes e importantes vinhos que ficaram de fora do blog até então.

A motivação de escrever é difusa e não tem jeito, se não há o “mote” não há postagem, por melhor que tenha sido analiticamente o vinho. Às vezes sobra preguiça, às vezes falta o “vírus passional”, gatilho dos pensamentos soltos sobre o vinho, e com o vinho.

O vinho: Tikal Amorio 2010

É um malbec produzido a partir de vinhas velhas e de altitude. Riquíssimo aromaticamente, frutas vermelhas, chocolate e tostados. Estagia 12 meses em carvalho, é bastante encorpado e apresenta certa rusticidade tânica, que eu amo e que demonstra o enorme poder de guarda deste vinho, sua complexidade e potência. Sem sombra de dúvida um vinho pra chamar de meu! 🙂

A personalidade dos vinhos de Ernesto Catena é algo que me intriga de maneira cativante. É um estilo desafiante, meio que uma desconstrução em torno de uma tradição vinícola, afinal o sobrenome Catena não é a toa. Diria que Ernesto é uma “dissidência” louvável do império Catena. Gosto das dissidências, são essas subversões que normalmente nos põe a enxergar mais alem, sair do “quadrado”, questionar-se, desenvolver-se. E no mundo dos vinhos elas não são poucas, ainda bem!

Subversões a parte o Amorio é daqueles vinhos que entristece ao chegar a ultima taça. Daqueles vinhos que você quer degustar cada vez mais em busca de revelar uma nova nuance e repetir a sensação de toda sua potência e personalidade em boca. É um vinho que adoro, e que sem nenhuma cerimônia recebe 4 taças e meia, e bem próximo da meia taça que falta. E aqui estou sendo altamente parcial e passional, mas acho que posso. É um tanto de “licença poética”! 🙂

* R$ 130, www.adegacuritibana.com.br

ARGENTINA

4 e meia TAÇAS

Andrassy Tokaji 6 puttonyos 2000

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O blog por tempos abandonado de repente se reencontra em um novo e clássico rotulo.

A garrafa desta noite foi tão, e carinhosamente, guardada. Parecia um verdadeiro paradoxo daquilo que aprendi e tanto repito: “a melhor forma de guardar um vinho é na lembrança“.

Mas um tokaji, um dos vinhos mais longevos do mundo, parece que implora pra ser cuidadosamente guardado à espera do “melhor momento”. Pois o melhor momento, ritualmente falando, não chegou. O que chegou foi o implorar por ser aberto. É em meio a toda uma reflexão mais profunda, e todas suas nuances, que a gente vê o quanto o vinho, e sua perfeita metáfora com a vida, em especial o tokaji, exige mais do que o degustar.

O vinho: Andrassy Tokaji Aszu 6 puttonyos 2000

O tokaji, clássico vinho húngaro produzido majoritariamente com a casta furmint e seus puttonyos de uvas botritizadas, tem riqueza aromática esplendorosa, mel, laranjas e tangerinas cristalizadas, riquíssimos aromas empireumáticos. Em boca a pura elegância da docilidade maravilhosamente contrabalaceada com uma acidez viva e voraz e final persistente, longo, longuíssimo. O parmeggiano reggiano segurou a harmonização com classe, muito embora soubesse que o roquefort seria a pedida ideal.

Mas o que seria o ideal? Taças riedel certamente, controle de temperatura e descrição organoléptica no paper da sommeliere “profissional”. Foi preciso sacrificar itens do “ideal”, nem mesmo as dignas taças existem mais, porém ainda assim o bravo tokaji de 6 puttonyos foi degustado com a reverência e apreciação que se espera dos amantes do vinho, para com um GRANDE vinho.

É em busca do “ideal” que vivemos à espreita de nos privar do que pode ser simplesmente bom em sua imperfeição, deixando de entender e receber aquilo que a vida nos apresenta, e quão efêmero tornaremos tudo isso. Esta singela garrafa de 500ml, o vinho que por mais tempo guardei, nao encontrou o “ideal”, mas encontrou seu “meio termo” suficiente pra revelar sua essência, e reforçar a velha metáfora. O vinho e a vida, numa maneira ainda mais ampla, sob nada menos que a ótica de um tokaji, onde na destruição da botrytis cinerea teve origem tão especial vinho!

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* em torno de R$ 400 numa feira de vinhos

HUNGRIA

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Um grande chileno: EPU 2008

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Foto de celular à noite é uma desgraça...

Eu adoro cozinhar. Na verdade adentrei ao mundo dos vinhos pela porta da  gastronomia. Por conta dos programas de Claude Troisgros e Atala, das aulas, dos livros e revistas de gastronomia. Mas tenho que confessar que tenho cozinhado quase nada! A preguiça me consome! O que é bem frustrante tendo em vista que cozinhar pra mim é um exercício de muito prazer. Mas outro dia discorro mais, muito mais, sobre este assunto que merece posts específicos, afinal comida e vinho é a mais completa combinação.

Tudo isso posto para dizer que a cozinha da minha casa agora fica na esquina da minha rua e atende pelo nome de Speciali! É uma pizzaria bem charmosa, com pizzas cheias de bossa e algumas entradinhas legais. O serviço e o ambiente são ótimos e a carta de vinhos do restaurante é muito boa, e feita corretamente, uma exceção ainda hoje!

Mas nesta noite de terça, a carta do Speciali foi deixada de lado e levamos o vinho! Compramos o EPU no lançamento da safra 2008 no www.wine.com.br. Trata-se do “segundo vinho” da vinícola boutique Almaviva, do enorme grupo Concha Y Toro. A expectativa era grande, afinal o Almaviva é um rótulo de imponência aos chilenos. No rótulo faz-se referencia ao corte bordalês com predominância da Cabernet, mas não informa quais outras cepas participariam. Eu acredito que tenha um pouco de carmenere, por fazer parte historicamente do corte bordalês embora não exista mais na França, só no Chile. Graduação alcoólica relativamente alta 14,5%, seria a presença de merlot?

Mas que grande Cabernet! Muito escuro (seria a Merlot?). Bastante aromático. Demos algum tempo de taça a ele mas nem era necessário tanto. Aromas típicos da cepa: pimenta do reino, pimentão. Muita fruta madura e também aromas terciários incluindo baunilha. O vinho em boca é um veludo (seria a Merlot novamente?), com o ataque típico da Cabernet. Discorremos sobre a diferença do “aveludado” em um cabernet e o “aveludado” de um Pinot Noir por exemplo, como o ataque e persistência posterior é diferente. É um vinho de bom corpo, que acompanhou bem a pizza de calabresa de javali, mas que com uma bela carne de churrasco seria perfeito! Taninos muito elegantes e acidez perfeita. Sem dúvida é um vinho equilibrado, harmônico.

Terminamos a garrafa do EPU com aquela sensação de querer mais que só os grandes vinhos proporcionam, e discutindo se seria um vinho que melhoraria com o tempo de guarda, daqui pra frente. Pra mim trata-se de um vinho PRONTO, que tem longevidade claro, mas não acredito que ganhará com o tempo na garrafa. Bem, acho que essa foi a única discordância da noite… 😉

Para o EPU 4 taças seria pouco. Mas 5 taças o colocaria como vinho perfeito, o que para os tintos especialmente, é bem complexo. Portanto além de didádico, as 4 taças e meia acabam por o defininir muito bem! A meia taça faltante é o misterio do que “ainda falta” neste grande rótulo!

*R$ 190 (www.wine.com.br)

CHILE