Andrassy Tokaji 6 puttonyos 2000

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O blog por tempos abandonado de repente se reencontra em um novo e clássico rotulo.

A garrafa desta noite foi tão, e carinhosamente, guardada. Parecia um verdadeiro paradoxo daquilo que aprendi e tanto repito: “a melhor forma de guardar um vinho é na lembrança“.

Mas um tokaji, um dos vinhos mais longevos do mundo, parece que implora pra ser cuidadosamente guardado à espera do “melhor momento”. Pois o melhor momento, ritualmente falando, não chegou. O que chegou foi o implorar por ser aberto. É em meio a toda uma reflexão mais profunda, e todas suas nuances, que a gente vê o quanto o vinho, e sua perfeita metáfora com a vida, em especial o tokaji, exige mais do que o degustar.

O vinho: Andrassy Tokaji Aszu 6 puttonyos 2000

O tokaji, clássico vinho húngaro produzido majoritariamente com a casta furmint e seus puttonyos de uvas botritizadas, tem riqueza aromática esplendorosa, mel, laranjas e tangerinas cristalizadas, riquíssimos aromas empireumáticos. Em boca a pura elegância da docilidade maravilhosamente contrabalaceada com uma acidez viva e voraz e final persistente, longo, longuíssimo. O parmeggiano reggiano segurou a harmonização com classe, muito embora soubesse que o roquefort seria a pedida ideal.

Mas o que seria o ideal? Taças riedel certamente, controle de temperatura e descrição organoléptica no paper da sommeliere “profissional”. Foi preciso sacrificar itens do “ideal”, nem mesmo as dignas taças existem mais, porém ainda assim o bravo tokaji de 6 puttonyos foi degustado com a reverência e apreciação que se espera dos amantes do vinho, para com um GRANDE vinho.

É em busca do “ideal” que vivemos à espreita de nos privar do que pode ser simplesmente bom em sua imperfeição, deixando de entender e receber aquilo que a vida nos apresenta, e quão efêmero tornaremos tudo isso. Esta singela garrafa de 500ml, o vinho que por mais tempo guardei, nao encontrou o “ideal”, mas encontrou seu “meio termo” suficiente pra revelar sua essência, e reforçar a velha metáfora. O vinho e a vida, numa maneira ainda mais ampla, sob nada menos que a ótica de um tokaji, onde na destruição da botrytis cinerea teve origem tão especial vinho!

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* em torno de R$ 400 numa feira de vinhos

HUNGRIA

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O gewurztraminer da frustração

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São engraçados esses paralelos inevitáveis dos vinhos com a própria vida. Ouso dizer que sempre é possível fazer algum, às vezes só falta um pouco de paciência pra descobrir.

Os bons brancos tem sido cada vez mais raros no meu convívio, seja pela preferência dos grupos de bebedores pelos tintos, seja pelo acesso um pouco restrito que tenho tido hoje aos brancos jovens, vivos. Saudade do ótimo torrontés da Serrera, do Doña Paula então nem se fala!

Após um “banho de água fria” e um planejamento de 2 meses jogados no lixo, tudo que desejava era um bom riesling, aromático, jovem, acidez viva. O que tinha era um gewurztraminer californiano que consegui trazer da ultima viagem. Péssima escolha na roleta dos vinhos americanos. Tudo bem, eu sei que fui audaciosa e que não poderia esperar muito!

O vinho: Fetzer Gewurztraminer 2010

Varietal simples da vinícola Fetzer que tem como grande destaque o “manejo sustentável” que, pelo que entendi, seria um passo anterior aos biodinâmicos que andaram pipocando por aí. É um típico vinho de regiões quentes, aromas de fruta muito madura, caramelizada, sem frescor algum. Na boca um vinho chato, sem acidez, onde o máximo que consegue-se degustar é meia taça. É um vinho que dá até preguiça de descrever. Foi também pro lixo. Ok, safra 2010, velho para um “branco-pra-ser-bebido-jovem”, mas posso apostar que mesmo em 2010 a acidez e os aromas enjoativos deixariam a desejar. É o típico vinho experimentativo de adega ou que o produtor, para não perder a safra de um ano exageradamente quente, resolveu ainda assim vinificar. É o que quero crer!

Como resumo da experimentação dupliquei a frustração: agora é esquecer o planejamento perdido degustando bons vinhos, logo logo, em uma bela expressão de terroir. Desta vez acompanhada dos tintos. Que me aguarde! 🙂

* U$ 20, em algum recanto de Las Vegas

EUA

1 TAÇA BRANCO

A eterna busca por rieslings

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Estou no Brasil e por mais que esteja fazendo um bom friozinho, priorizando os tintos em todas as escolhas, ainda sim há bons espaços para os brancos.

Minha grande dificuldade com os brancos e espumantes é muito mais no convencer os convivas pela escolha desses rótulos. A grande maioria dos bebedores eventuais sempre prefere um tinto a um branco, mesmo que a harmonização seja sofrível. Em jantares, muitos amigos não entendem porque quase nunca peço aquele “grande tinto”, acabo sempre escolhendo um tinto mais versátil e até sugerindo bons brancos, que casariam mais fácil com a variância dos pratos. Muitos não entendem que grande tintos pedem refeições a altura pois são harmonizações mais complexas, ou então um degustar sem comida, minha preferência.

Fui a um ótimo restaurante japonês na minha passagem pelo Rio de Janeiro, o Yume, e finalmente consegui tirar a cerveja e a caipiroska da mesa, pedida certa com esse tipo de comida. Escolhemos um riesling de mosel pra tentar harmonizar com os sushis e sashimis, servidos muito frescos, e com a saudade acolhedora de quem está longe…

O vinho: Selbach-Oster Riesling Trocken 2009

Vinho bastante fechado aromaticamente, frutas cítricas, maça verde e pêra. Na boca um vinho ligeiro com boa acidez, muito leve e refrescante. Álcool equilibrado porém faltou um pouco mais de personalidade, por vezes pensava estar degustando um sauvignon blanc, meu karma.

Por fim o vinho acompanhou bem o salmão fresco, assim como os outros acepipes, e serviu de aperitivo perfeito para a conversa noite a dentro. E assim eu vou me familiarizando cada vez mais com o Rio de Janeiro. 😉

* R$ 150 na carta de vinhos do Yume

ALEMANHA

Um chenin blanc do sertão

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Esse chenin blanc foi degustado na minha ida à Petrolina num passeio de barco extremamente agradável. É daqueles vinhos simples e adequados à ocasiões como esta, onde se deseja uma bebida leve e de frescor.

O vinho: TerraNova Chenin Blanc 2010

Na taça um amarelo palha, bastante brilhante. No nariz muita fruta crítica porém com alguma doçura. Em boca boa acidez, retrogosto cítrico e mel conferindo ao vinho um caráter bastante interessante para harmonizações despretensiosas com peixes ou frutos do mar grelhados. Importante não descuidar da temperatura a fim de manter o frescor adequado.

Ótima opção para um dia de sol e calor no rio São Francisco.

* R$ 19 no bar à bordo

BRASIL

Vinho verde. Um vinho conforto.

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Aqueles dias em que tudo dá errado, que você vai longe nos pensamentos mais negativos possíveis. É nesses dias que a palavra conforto faz mais sentido. Amigos conforto, companheiro conforto, comida conforto, lugar conforto, conversa conforto. Discutir a formação paradoxal do ser humano é possível, mas nestes dias conforto é tudo o que a gente busca. E merece.

O vinho deste dia foi o simples, como pedia a conjuntura, mas eficiente vinho verde para acompanhar uma refeição igualmente leve de pescada amarela com molho de uvas verdes e alcaparras. Num dos lugares mais “conforto” de Salvador.

O vinho: Condes de Barcelos Vinho Verde 2010

Bastante cítrico e fresco no nariz, com abacaxi e maça verde. Presença de perlage bem delicada. Na boca uma ótima acidez que casou perfeitamente com o prato.

É no dia em que tudo lá fora dá errado que a gente encontra um vinho de R$ 16 que faz todo o sentido… Como diz o ditado: No vinho, a verdade! In vino veritas!

* R$ 16, www.adegabrasil.com

PORTUGAL

Afros 2009: Um verde versátil

Os vinhos verdes ainda tem um espaço bastante restritos nas prateleiras e na mesa dos brasileiros o que não deixa de ser uma contradição dada a imensa facilidades em bebê-los, me refiro aos brancos, no nosso clima.

O vinho: Afros 2009 – Casa do Paco Padreiro

Esse vinho verde, elaborado com a casta portuguesa loureiro, é bastante aromático e em nada se parecendo com os “brancos-padrão”, sendo uma ótima opção para quem quer variar dos sauvignon blanc de sempre com mais complexidade. Lembrou-me a torrontés em carga aromática e retrogosto, acidez boa apesar da certa idade, refrescante, mas não senti as “agulhas” típicas dos verdes. É um vinho verde com alcool acima da média desses vinhos, 12 graus. Aromas mais maduros com um toque de mel também, bastante fácil de beber e acompanharia muito bem comida, na verdade não tenho dúvidas que é um vinho gastronômico: mais uma oportunidade para degustação deste rótulo.

* R$ 59 www.ibizagourmet.com.br

PORTUGAL

Agora sim um riesling de verdade!

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Minha casta branca do momento é sem dúvida a riesling. Talvez até motivada pela imensa dificuldade em encontrar exemplares dela nas lojas (normais) de vinhos.

Gosto muito do caráter extremamente marcante e aromático, as notas minerais e o frescor de frutas cítricas típicas do riesling. Minha grande frustração é experimentar muito pouco desta casta pois, não tem jeito, somos bombardeados de vinhos de chardonnay (normalmente embarricados) e sauvignon blanc nos permitindo menos provas de vinhos diferentes com riesling, gewustraminer, malvasia, torrontés, viognier, etc…

Mas, naquela velha questão de experimentação, ando em busca de evitar as castas “arroz-de-festa” e me permitir o desfrute de diferentes sensações. E eu que pessoalmente gosto de raríssimos sauvignon blanc preciso mesmo buscar alternativas brancas à chardonnay.

O vinho: Domaine Paul Blanck Riesling 2007

Um riesling da Alsácia, região que juntamente com a Alemanha, divide a soberania da melhor expressão da casta. Vinho elegante, frutado com maça verde e pêras (um tanto em caldas) e floral, aromático sem ser enjoativo e sem aromas de petróleo. Acidez na medida, bom corpo e persistência, com certa untuosidade e deixando a sensação: “Não estou bebendo mais do mesmo!”

Só sei que quero mais desse riesling! 😉

* R$ 100, www.boccati.com.br

FRANÇA

Serrera Moments Torrontés 2008

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Esse vinho comprei praticamente às cegas sob indicação do sommelier de uma loja de vinhos daqui de Salvador. Não conhecia a vinícola, mas ele falou muito bem do rótulo e bons exemplares de torrontés não são tão disponíveis por aqui.

Um ótimo branco! Que vai para minha listinha de brancos a serem degustados sempre! Daqueles que num sol maravilhoso se comportam da melhor maneira possível. Aromático como manda a casta, persistente e com uma complexidade a mais dos que os brancos de “dia-a-dia”. Aroma de frutas brancas maduras e em calda (maça, pera), um tanto floral e algum toque de mel, amanteigado. Na boca um ataque elegante, com acidez maravilhosa convidando sempre a um novo gole.

Foi degustado sem comida alguma, mas é sem dúvidas um vinho gastronômico para acompanhar não só carnes brancas mas arriscaria também um bom camarão grelhado ou com algum queijo suave.

* R$ 45, www.espumantesweb.com.br

ARGENTINA

E o riesling que deveria estar aqui?

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A grande questão nesse vinho foi se ele merecia duas ou apenas uma taça na avaliação. Tudo bem que ele veio na seqüência do Amarone, mas num outro contexto.

O vinho: Dönnhoff Riesling Trocken 2009

Seria um vinho pra acompanhar uma comida leve, e eu estava na pilha por um riesling. No restaurante Rascal esse era o único riesling da carta de vinhos, um riesling alemão. Nao tinha como duvidar. Mas… que fracasso. Como riesling ele era um razoável sauvignon blanc. Eu ainda insistia: “calma, vamos dar um tempo em taça para ele abrir”. Que nada! Apesar de aromático, e sem o aroma de querosene característico de muitos rieslings e que me desagrada (tem aquela questão de ser ou não um defeito), faltava a potência aromática tão típica e famosa dessa casta. Na boca era ligeiro, sem grandes atrativos. Ainda faltava um tanto de acidez, nem frescor suficiente ele trazia.

Pra mim esse vinho tem quase defeito na vinificação. Nao mostrou a característica do varietal. Mas como pode ser um blend com outras castas, nao tinha isso no rótulo, achei por bem lhe conceder 2 taças. E tenho certeza que fui boazinha, complacente, coisa que normalmente não sou. Talvez tenha sido a influência do Amarone anterior. 😉

* R$ 114 no Rascal (São Paulo)

ALEMANHA

Argentino no Natal Pernambucano

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Depois de algum tempo morando em Salvador/BA parece que voltar pra “casa” tem sempre aquele gostinho nostálgico como se estivesse tãoooooo distante. E o Natal é um momento de estar em família! Mas é engraçado como nestes momentos muita gente simplesmente “esquece” o motivo do feriado (não sou religiosa, mas agregar ao Natal um tanto das reflexões de Jesus Cristo seria o mínimo pra dar significado a esta data né?).

Voltemos ao foco. Em Recife, comidinha da mamãe. Ceia com peru e bacalhau. O meu desprendimento de Natal veio do vinho, logo o vinho! Não trouxe vinho da minha adega, aqui ninguém bebe vinho, e não tive coragem alguma de encarar lojas em dia de Natal. Tive que me contentar com o branco argentino que veio numa “cesta de Natal”. Expectativas mínimas. Mas que vem atender minha vontade didática de avaliar vinhos mais simples e analisar o famigerado “custo-beneficio”.

O vinho: Select Pampas del Sur – Chardonnay/Chenin Blanc 2010.

Trata-se de uma “segunda linha” do grupo argentino Trivento, com 50% chardonnay e 50% Chenin Blanc. A cor é um dourado bem claro com toques esverdeados. No nariz você tem que se esforçar bastante para sentir algum aroma. Na boca uma acidez desequilibrada, vinho agressivo com retrogosto amargo. Vinho deselegante. Nao seguiu a refeição, foi abandonado. E digo que não vale o preco, melhor comprar cervejas com o valor dele.

No fim do jantar intimista a conclusão foi de que, na mesa pernambucana de hoje, o único argentino que se comportou a altura foi o alfajor Havanna, que veio de Mar del Plata, pra satisfazer minha fissura por este doce, e acompanhar o café! 😉

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*cerca de R$ 20

ARGENTINA