Em Mendoza: Alta Vista, Bonarda e Single Vineyard

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Mais um medalhão argentino! Os vinhos da Alta vista são bastante conhecidos do público brasileiro, talvez os premium estejam menos presentes, pelos menos nas cartas de vinhos de restaurantes. A minha visita à Alta Vista contava também com a expectativa da degustação dos seus azeites, muito bons. Infelizmente haviam se esgotado todos ficando como consolo apenas as (lindas!) oliveiras carregadas que pudemos ver junto à entrada da vinícola.

A degustação proposta na visita foi bem interessante, contando com o espumante Atemporal (chardonnay e pinot noir), um Premium Torrontés, um Premium Bonarda, um Terroir Selection Malbec e o TOP de linha da vinícola o Alta Vista Alto. (PS: a falta das safras é pura falha, não anotei, e como só lembro de dois achei melhor não colocar a de nenhum).

O espumante e o torrontés bastante interessantes, só faltando um pouco mais de acidez (minha sempre fixação!). O bonarda muitíssimo elegante no nariz e na boca, vinho pronto e bastante versátil fugindo um pouco do “lugar comum” dos malbecs. O malbec Terroir Selection bastante vivo, estruturado, me agradou bastante, mas precisa de mais guarda para o consumidor médio (era ainda bastante jovem). Já o Alta Vista Alto é de fato um grande mendocino, não é vinificado em todas as safras, somente em anos destacados, redondo, taninos elegantes e ótima acidez, demonstrando sua longevidade.

Nesta degustação, individual, foi possível discorrermos não somente sobre os aspectos dos vinhos degustados, mas também conversar sobre o universo dos vinhos em geral, discutimos um pouco sobre terroir, as regiões vinícolas da Argentina, suas características em termos de temperatura, solo, altitude, castas… Eu não sabia, mas a bonarda, um tanto exótica no rol dos vinhos mais comerciais, é a segunda variedade mais plantada na Argentina (perdendo apenas para a malbec) e foi sem dúvida a casta que me brindou com mais surpresas durante toda a viagem. Se minha única experiência com a bonarda tinha sido um fiasco, após esta viagem a casta ganhou lugar de destaque no meu gosto pessoal. O Premium Bonarda da Alta Vista me encheu os olhos, por ser muito mais do que se espera de um bonarda: aromas elegantíssimos, corpo na medida, e um final bom, não tão curto como era de se imaginar. Realmente um exemplar pra sempre ser degustado, veio um na mala! 😉

Neste contexto, foi também possível discorrermos sobre o conceito de “Single Vineyard” (vinhedo único) tão disseminado em Mendoza. A meu ver há certo exagero no uso do termo, todas as vinícolas tratando de ter seu próprio rótulo single vineyard, o que deveria ser uma condição de exceção (ou não?). O conceito tão presente na França e Itália, países pais dos vinhos, trata normalmente de vinhos singulares, de vinhedos excepcionais, normalmente vinhas velhas, com os quais fazer blends com outros vinhedos seria quase um sacrilégio! A pergunta que restou depois de conhecer tantos single vineyard em Mendoza foi se realmente existem tantos vinhedos excepcionais assim por lá, ou se na verdade não estariam perdendo uma maior expressão, com assemblages bem feitos, em favor do apelo de marketing de exclusividade dos single vineyard. Fica a reflexão!

De fato a Argentina foi agraciada ao ter dado berço, e representatividade, a três castas sem tanta expressividade em outros terroirs. É como se Baco tivesse sentenciado: “Essas três castas terão origem em outro lugar, mas só mostrarão quem realmente são quando chegarem à Argentina.”  Desabrocharam muito bem, e verdade seja dita: Malbec, Bonarda e Torrontés são a cara da Argentina!

A efervescência espanhola

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No Brasil a importação de vinhos espanhóis ainda é tímida, considerando que a espanha é o terceiro maior produtor mundial de vinhos, perdendo apenas para a Itália e França. E mais engraçado perceber que quando se fala em vinho espanhol vem sempre a tona o grande rótulo Vega Sicília. Clássico e imponente como manda a fama e tradição. Mas há tempos a Espanha é muito mais do que somente o Vega Sicília.

Neste contexto, preciso pontuar a classificação oficial dos vinhos espanhóis que é um caso a parte. Pois ao mesmo tempo que facilita pode criar alguns confusões de “qualidade”.

Os vinhos Crianza (não confundir com vinhos jovem, significa “criado” em madeira) devem estagiar por 6 meses em barricas e 18 meses em garrafa. Já os Reserva vão estagiar 12 meses em madeira e mais 24 meses em garrafa. Os Gran Reserva, que seriam o topo da pirâmide, estagiam 24 meses em carvalho e 36 meses em garrafa.

Importante lembrar a história vinícola mais antiga da Espanha, especialmente em Rioja, onde se produziam vinhos mais brutos com muita presença de madeira, neste caso barris reutilizados de carvalho americano, que descaracterizam a tempranillo e conferiam aos vinho um caráter pouco elegante com aromas de couro inclusive, desagradáveis. Era o velho estilo dos vinhos espanhóis e que ainda podem ser encontrados. Com a mudança e evolução enológica que o país passou, focou-se mais na extração em si, maturação adequada, fermentação controlada, onde conseguiu-se extrair o caráter frutado que vemos hoje, quase que tornando o vinho espanhol um meio termo entre os austeros do “velho mundo” e os potentes do “novo mundo”. E Robert Parker, grande admirador dos espanhóis, foi uma peça importante no crescimento do mercado vinícola espanhol ao conferir notas bastante altas aos rótulos de lá. Não vou entrar no mérito dos critérios dele, não agora.

Estes “novos” vinhos não necessariamente precisam de tanto carvalho e tempo de garrafa para mostrar seu auge, e é por isso que nem sempre a classificação “hierárquica” do modelo espanhol funciona como sinônimo de qualidade. Cada uva, cada safra e cada modelo de vinificação proposto pelo enologo vai demandar um tempo de espera diferente. E essa é uma das grandes questões da enologia. Foi-se o tempo em que maior estágio em carvalho era sinônimo de maior qualidade.

Todos os níveis da classificação tem bons vinhos e o embate entre eles é bem interessante, conforme minha ultima tentativa. Na verdade, nos vinhos de mais tempo de espera (Reserva e Gran Reserva) ainda há o risco de encontrar os “velhos tipos” de Rioja: excesso de madeira (velha) e pouca elegância. E para descobrir, sem conhecer a vinicola, só há uma coisa a fazer: degustar. O que não será esforço algum, afinal de contas a Espanha anda nos trazendo de fato grandes vinhos.

Malbec: A “relegada”

Eu nem me lembro mais se um dia gostei de malbec. Mentira! Eu gostei sim, e muito, mas confesso que pego uma certa antipatia por aquilo que vira “arroz-de-festa”. 😛

A malbec coitada, originária da França mas que se consolidou e firmou na Argentina, foi vítima de muitos rótulos medíocres, tomados pela moda da casta “ressurgida” como patrimônio argentino! Virou até nome de perfume por aqui…

Eu peguei um certo abuso daqueles vinhos extremamente alcoolicos com aroma frutado, MUITO frutado e só. Taninos sem graça. Pareciam feitos em série. Criei até umas regras mentais de repúdio à “preterida”:

  • Não experimentar novos rótulos
  • Não pedir em restaurante
  • Não comprar nenhuma garrafa durante um ano

Ainda tenho 4 rótulos de malbec na adega, por influência exclusiva do comparsa de vinhos que nutre uma certa paixão pela dita cuja.

Mas claro que conheci os bons, e cansei da experimentação “às cegas” de rótulos duvidosos. A malbec realmente produz vinhos bastante aromáticos, alcoolicos, bem escuros, com taninos mais suaves e boa acidez. A passagem por madeira é inevitável para agregar mais complexidade ao vinho. Eu só não entendo porque não se produz mais assemblages com ela na Argentina, eu sinto que ela não é uma uva que nasceu pra ser só. Imagino que daria vinhos mais harmônicos e com mais personalidade junto à outras cepas… Viagem da minha imaginação “pretensa-enológica”?

Tudo isso posto pra na verdade justificar mentalmente a súbita vontade que me deu hoje de um malbec, de um bom malbec. Porque os bons são realmente muito bons!

Não sei… Mas parece que amanhã é o dia dela! Só escolher o rótulo, apagar as velinhas e quebrar o jejum.

Terroir: O vale do São Francisco

Me lembro bem quando criança e viajámos de carro nas férias eu, dois primos e um tio, de Garanhuns (agreste pernambucano) a Petrolina (sertão pernambucano). Chegando em Petrolina avistávamos os vinhedos e tinham as paradas estratégicas para tomar o suco de uva e comprar geléias. Dentro deste contexto falar do Vale do Rio São Francisco tem uma pegada bem nostálgica pra mim, como boa pernambucana que sou!

O que acontece no Vale do São Francisco é que devido a ausência de inverno, as plantas estão sempre em atividade

João Santos, agrônomo da ViniBrasil (detentora da marca Rio Sol)

Pois bem, essa é a melhor forma de definir este terroir tão atípico. Fora das latitudes onde geralmente de produz vinhos, com sol o ano inteiro, é a única região do mundo onde se produz duas safras ao ano! A produção vitivinicola teve início na década de 70 e hoje o Vale do São Francisco só perde para o Rio Grande do Sul na produção de vinhos finos no Brasil.

Na serra gaúcha todos falam do Vale com alguma reticência. Com respeito, mas reticente. É de se entender: claro que uma videira que produz uma safra por ano “””deve””” conferir maior qualidade aos frutos do que aquela que produz duas vezes ao ano. Isso é um fato, mas nem por isso desmerece os vinhos do Vale. Tem que se entender os vinhos produzidos lá dentro desta particularidade local.

Grandes grupos nacionais e internacionais se estabeleceram por lá, trazendo a expertise, no manejo dos vinhedos e na enologia. Produzindo bons vinhos, inclusive uma boa parte já é exportada. Se produz Moscatel, Chenin Blanc, Sauvignon Blanc, Syrah, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet, Touringa Nacional entre outras castas. Fala-se muito bem do Rio Sol Reserva Syrah de 2005, infelizmente não tive oportunidade de experimentar.

Confesso que quando abro uma garrafa do Vale sempre testo logo a acidez, é que se os produtores deixassem o vinho só pela ação da natureza as uvas seriam muito doces e pouco ácidas por conta da ação perene do sol na maturação. Seriam produzidos vinhos fortes, porém pouco ácidos, chatos. Mas a enologia utiliza o processo de acidificação para equilibrar os tintos (principalmente) e o brancos. Esse procedimento nao é aceito em todos as regiões mundo, mas em Bordeaux e Borgonha é utilizado nas regiões mais quentes, que sofrem com este mesmo problema.

Faço questão de tomar e propagar os vinhos do Vale, por que sou bairrista mesmo. 😛 Brincadeira… Na verdade acredito muito no desenvolvimento da economia local fomentada pela valorização daquilo de bom que esta sendo produzido próximo a nós!

Há bons vinhos do Vale que compensam a experiência. Especialmente para perceber as diferentes sensações dos vinhos produzidos em uma região vitivinicola desbravada em pleno sertão pernambucano, que certamente poucos apostariam, e que como por capricho hoje já ocupa posição de destaque no cenário dos vinhos brasileiros.

A propósito: gosto muito do label Rio Sol. Acho que conseguiu imprimir a metáfora perfeita para os vinhos do Vale: água do Rio São Francisco + Sol o ano inteiro!

Campofiorin Ripasso 2007 (Masi)

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A quarta feira chega completamente despretensiosa, meio de semana, como quem não quer nada. Na verdade ninguém espera nada de uma quarta feira. Mas é justamente quando esperamos pouco, ou quase nada, que nos surpreendemos. Caso do vinho desta quarta.

Fim de noite. Saída do trabalho às 20h.
“Que tal um vinho?”
“Só se for tinto.”

Eu estava completamente agoniada para o debut do primeiro tinto do blog. Preciso confessar que já tenho algumas avaliações na gaveta, mas num blog a gente espera algo além do “programadamente burocrático”. 😀

Eu sabia que o primeiro tinto seria italiano, tinha que ser. O despertar pelos vinhos tinha que iniciar também os tintos do blog.

Restrição: carta de vinhos do restaurante. Saída: fomos no menos obvio da carta. Um IGT, nada de DOCs ou DOCGs. Eu queria um Amarone mas como não deu (pretensão mode on)… Este é um vinho produzido pelo método “ripasso” de vinificação, onde o vinho comum é colocado nas cubas onde foram produzidos os Amarones e em contato com a borra sofrem uma segunda fermentação, a idéia é agregar algo da borra do grande Amarone ao vinho “normal”.

Vou dizer: nada a ver com o Amarone, apesar de receber as mesmas cepas (corvina, rodinella e molinara). Tem estágio em carvalho, o que lhe da alguma complexidade, mas na verdade degustamos um vinho bem jovem, de corpo médio. Acidez bastante acentuada para um vinho completando seu quinto aniversário, taninos equilibrados.

Eu fiquei receosa da harmonização com pizza (parma com mascarpone e quatro queijos) temendo o vinho se sobressair, mas vi um tinto extremamente vigoroso e aromático (dê tempo na taça a ele, ele é fechado a princípio) ser degustado e uma boa harmonização com a pizza, que seria pouco para um Amarone de verdade!

Resultado da noite: sorrisos, um brinde ao blog e mais um tinto para a lista das boas surpresas. Ok, ok. Talvez com contribuição da pizza, da música, do lugar… Enfim, mas vinho não é exatamente isso e tudo o mais? 😉

Salute!

*R$ 85, mistral.com.br

ITÁLIA

Mini Vocabulário do Vinho

20111213-005341.jpgQuem nunca se deparou com um termo relativo ao vinho e que nao fazia idéia do que se tratava?

A proposta do mini vocabulário, fixo no blog, foi definir as expressões mais usadas e poder desta forma ir agregando mais vocábulos no decorrer do blog, e inclusive discutir aqueles termos mais polêmicos.

Entrem e estejam a vontade! 😉

Mini Vocabulário do Blog

 

Defeitos do vinho

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Quem nunca pensou “Mas que pedante!” ao ver alguém cheirando a rolha do vinho num restaurante? Clichês e cenas a parte, os defeitos dos vinhos realmente existem. Aquela sensação de que o “teste” do vinho na mesa (quando e servida a primeira “dose”) não passa de encenação deve deixar de ocorrer.

Graças às melhorias nos padrões de produção e armazenagem é mais difícil hoje em dia precisarmos devolver um vinho, mas é possível que ocorra.

A rolha é o começo de tudo. Por ela podemos ver se houve por exemplo vazamento do ar/vinho e consequente oxidação do mesmo. Já tive este desprazer de experimentar um vinho oxidado. Neste caso trata-se um defeito na vedação.

Os defeitos podem ser de consequência visual apenas (cristais na garrafa, vinho turvo) que normalmente são evitados nas filtrações após a vinificação. E existem os defeitos que comprometem os aromas e paladar do vinho:

1) cheiro de mofo: provém do vinhedo. Ocorre quando uvas infectadas sao vinificadas acidentalmente. Um controle de qualidade rígido na separação dos cachos evita este defeito.

2) ácido acético (vinagre): o vinho “avinagra” por acao de bactérias remanescentes da ultima fermentação. Estas bactérias deteriorantes degradam o açúcar residual do vinho agregando-lhe o aroma acético.

3) aroma de madeira “enjoada”, desagradável: devido a contaminação por leveduras das barricas e tanques de carvalho não esterilizados corretamente.

4) bouchonée ou “gosto de rolha”: o TCA é uma substancia química proveniente da reação de fungos presentes na cortiça com alguns produtos desinfectantes. O TCA ofusca os verdadeiros aromas do vinho dando-lhe cheiro de papelão molhado. Considera-se que 5% dos vinhos vedados com rolha estejam contaminados pelo TCA.

Não gostar do vinho não é motivo para devolve-lo. Precisamos identificar os reais defeitos, e para isto poder contar com a ajuda de profissionais que possam atestar tratar-se de um vinho defeituoso.

Ah! Que estes vinhos sejam raros nas nossas degustações! 😀

Rosé Luiz Argenta 2011

Sendo este o vinho da harmonização com sopinha do ultimo post, aproveitei enquanto cozinhava para degustar somente o vinho e perceber suas nuances.

Comprei esta garrafa na propria vinicola, na cidade de Flores da Cunha/RS. A visita a vinicola já valeria a pena só pela construção em si. Engenheira mode on. Encrustrada em rocha, a cave é belíssima realmente. Vinhos bem feitos, e até algumas surpresas: um “amarone” brasileiro estaria sendo “concebido” por lá? Vamos aguardar… Inclusive, na avaliação nacional dos vinhos deste ano (safra 2011) o Merlot Luiz Argenta ficou entre os 16 melhores vinhos.

Esse é o rosé “amostrado”, corte de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot e Syrah. Tenho que confessar que a garrafa me chamou muito a atenção. Afinal o design também conta quando lembramos das garrafas padronizadas que dominam o mercado. Mostra uma preocupação extra. 🙂 O enologo da vinicola, Edegar Scortegagna, quando foi falar da vinificação frisou também o tempo de permanência das cascas para a obtenção da cor pretendida. Realmente a cor do vinho é rosada e não salmão como muitos rosés.

Mas vamos ao que realmente interessa. O vinho é bom? Muito aromático. Aroma de morango e também frutas cítricas, um pouco de flores também. Acidez maravilhosa, denunciando a pouca idade do vinho, mas especialmente mostrando a que veio: um rosé jovem, com frescor, sem firulas e que acompanharia muito bem os famosos frutos do mar mas também carnes menos condimentadas, grelhadas.

Vou falar a verdade, pra mim esse rosé tem algo bem especial: mostra que aqui no Brasil temos sim rosés de VERDADE. Sem essa necessidade de produzir vinhos roses doces e “maquiados” de cor-de-rosa sob o falso pretexto de que são vinhos “menos sérios”. E isso tem a ver com a qualificação do consumidor, além do visivel desenvolvimento das vinícolas da Serra Gaucha. Acredito que estamos num bom caminho!

* R$ 27 (www.luizargenta.com.br)

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