Um grande chileno: EPU 2008

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Foto de celular à noite é uma desgraça...

Eu adoro cozinhar. Na verdade adentrei ao mundo dos vinhos pela porta da  gastronomia. Por conta dos programas de Claude Troisgros e Atala, das aulas, dos livros e revistas de gastronomia. Mas tenho que confessar que tenho cozinhado quase nada! A preguiça me consome! O que é bem frustrante tendo em vista que cozinhar pra mim é um exercício de muito prazer. Mas outro dia discorro mais, muito mais, sobre este assunto que merece posts específicos, afinal comida e vinho é a mais completa combinação.

Tudo isso posto para dizer que a cozinha da minha casa agora fica na esquina da minha rua e atende pelo nome de Speciali! É uma pizzaria bem charmosa, com pizzas cheias de bossa e algumas entradinhas legais. O serviço e o ambiente são ótimos e a carta de vinhos do restaurante é muito boa, e feita corretamente, uma exceção ainda hoje!

Mas nesta noite de terça, a carta do Speciali foi deixada de lado e levamos o vinho! Compramos o EPU no lançamento da safra 2008 no www.wine.com.br. Trata-se do “segundo vinho” da vinícola boutique Almaviva, do enorme grupo Concha Y Toro. A expectativa era grande, afinal o Almaviva é um rótulo de imponência aos chilenos. No rótulo faz-se referencia ao corte bordalês com predominância da Cabernet, mas não informa quais outras cepas participariam. Eu acredito que tenha um pouco de carmenere, por fazer parte historicamente do corte bordalês embora não exista mais na França, só no Chile. Graduação alcoólica relativamente alta 14,5%, seria a presença de merlot?

Mas que grande Cabernet! Muito escuro (seria a Merlot?). Bastante aromático. Demos algum tempo de taça a ele mas nem era necessário tanto. Aromas típicos da cepa: pimenta do reino, pimentão. Muita fruta madura e também aromas terciários incluindo baunilha. O vinho em boca é um veludo (seria a Merlot novamente?), com o ataque típico da Cabernet. Discorremos sobre a diferença do “aveludado” em um cabernet e o “aveludado” de um Pinot Noir por exemplo, como o ataque e persistência posterior é diferente. É um vinho de bom corpo, que acompanhou bem a pizza de calabresa de javali, mas que com uma bela carne de churrasco seria perfeito! Taninos muito elegantes e acidez perfeita. Sem dúvida é um vinho equilibrado, harmônico.

Terminamos a garrafa do EPU com aquela sensação de querer mais que só os grandes vinhos proporcionam, e discutindo se seria um vinho que melhoraria com o tempo de guarda, daqui pra frente. Pra mim trata-se de um vinho PRONTO, que tem longevidade claro, mas não acredito que ganhará com o tempo na garrafa. Bem, acho que essa foi a única discordância da noite… 😉

Para o EPU 4 taças seria pouco. Mas 5 taças o colocaria como vinho perfeito, o que para os tintos especialmente, é bem complexo. Portanto além de didádico, as 4 taças e meia acabam por o defininir muito bem! A meia taça faltante é o misterio do que “ainda falta” neste grande rótulo!

*R$ 190 (www.wine.com.br)

CHILE

Um espumante e uma tarde de sábado

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Dom Cândido Brut. Esse foi o espumante de um sábado lindo, céu azul, almoço num lugar maravilhoso (Baby Beef Gamboa, em Salvador/BA), vista pra baía de todos os santos, comida impecável e o melhor: na companhia de amigos!

A entradinha de paes e pastas, assim como o bom tempo, pediram um espumante. Escolhi o Dom Cândido pois queria um nacional, e já conhecia os bons tintos da vinícola. Ninguém quis me acompanhar. “Ah Gabi… Espumante só pra brindar no ano novo, prefiro uma boa Baden Baden agora”. Ok, segui sozinha na degustação na expectativa de surpreender.

Decepção. Eu insisti mas realmente este é um espumante para um brinde e só! Perlarge grosseira, o rótulo nao informa se charmat ou champenoise mas quando aberta a garrafa pensei tratar-se de um refrigerante. Aromas altamente escondidos tinha que fazer um esforço monstro pra aspirar e sentir algo, e o pior de tudo: acidez fraquíssima, o que tornou o espumante chato, muito chato. A sensação nao era a de estar tomando um espumante brut, a doçura, sem acidez, se sobressai. Enjoei. Eu só vejo esse espumante em brindes ou como aperitivo, logo substituído, sem acompanhar comida.

Acompanhou muito mal a entrada e foi completamente desconsiderado na escolha do prato principal, nao valia o esforço. Fomos de carne vermelha e a companheira mais acertada: a Baden Baden.

Tem dias que você nao acerta no vinho, ossos da experimentação. Amigos certos, vinho errado. O vinho a gente troca. Já os amigos… ah os amigos, se forem “errados” estragam ate o Chateau Petrus que tinha na adega do restaurante! 🙂

* R$ 34 (www.meuvinho.com.br), R$ 82 no Baby Beef.

BRASIL

Campofiorin Ripasso 2007 (Masi)

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A quarta feira chega completamente despretensiosa, meio de semana, como quem não quer nada. Na verdade ninguém espera nada de uma quarta feira. Mas é justamente quando esperamos pouco, ou quase nada, que nos surpreendemos. Caso do vinho desta quarta.

Fim de noite. Saída do trabalho às 20h.
“Que tal um vinho?”
“Só se for tinto.”

Eu estava completamente agoniada para o debut do primeiro tinto do blog. Preciso confessar que já tenho algumas avaliações na gaveta, mas num blog a gente espera algo além do “programadamente burocrático”. 😀

Eu sabia que o primeiro tinto seria italiano, tinha que ser. O despertar pelos vinhos tinha que iniciar também os tintos do blog.

Restrição: carta de vinhos do restaurante. Saída: fomos no menos obvio da carta. Um IGT, nada de DOCs ou DOCGs. Eu queria um Amarone mas como não deu (pretensão mode on)… Este é um vinho produzido pelo método “ripasso” de vinificação, onde o vinho comum é colocado nas cubas onde foram produzidos os Amarones e em contato com a borra sofrem uma segunda fermentação, a idéia é agregar algo da borra do grande Amarone ao vinho “normal”.

Vou dizer: nada a ver com o Amarone, apesar de receber as mesmas cepas (corvina, rodinella e molinara). Tem estágio em carvalho, o que lhe da alguma complexidade, mas na verdade degustamos um vinho bem jovem, de corpo médio. Acidez bastante acentuada para um vinho completando seu quinto aniversário, taninos equilibrados.

Eu fiquei receosa da harmonização com pizza (parma com mascarpone e quatro queijos) temendo o vinho se sobressair, mas vi um tinto extremamente vigoroso e aromático (dê tempo na taça a ele, ele é fechado a princípio) ser degustado e uma boa harmonização com a pizza, que seria pouco para um Amarone de verdade!

Resultado da noite: sorrisos, um brinde ao blog e mais um tinto para a lista das boas surpresas. Ok, ok. Talvez com contribuição da pizza, da música, do lugar… Enfim, mas vinho não é exatamente isso e tudo o mais? 😉

Salute!

*R$ 85, mistral.com.br

ITÁLIA

Viu Manent Reserva Chardonnay 2010

O calor senegalês que anda fazendo neste trópico que habito relembra todo o tempo que o verão está aí, e claro, desfavorece a escolha dos tintos.

O rotulo de hoje foi escolhido pra não errar. A gente sempre sabe que os vinhos da Viu Manent são boas pedidas. Como ainda não tinha experimentado o chardonnay considerei boa escolha para um almoço de fim de tarde e tendo em vista as “compactas” cartas de vinhos de restaurantes.

ADENDO. Preciso fazer um comentário OFF a respeito do restaurante: Risoteria Terra Brasil, em Salvador/Bahia. Lugar: agradável, clima de bistrô. Atendimento: bom, sem frescuras. Serviço: muito bom, mesa, taças, etc. Comida: muito boa. Preço: caro, mas dentro dos padrões para lugares similares. FRUSTRAÇÃO: as porções são muito pequenas. Donos de restaurantes têm que entender o princípio daquilo que vendem e principalmente adequar aquilo que é vendido ao preço que praticam. Sabemos que risoto na Itália é sinônimo de prato único (fora os antepastos) e que por isso devem servir bem. Eu sinceramente não entendo como um restaurante que fez tudo correto (o mais difícil, eu acho) erra em algo tão primário. As porções servidas não atenderiam os homens da mesa, ou seja…

Mas voltemos ao vinho! Trata-se de um Chardonnay com participação de Viognier no corte (4%). Vinho corretíssimo. Vivo, aromático. Banana sobressai, mas com toques dos cítricos e melão. Na boca tem inclusive um toque amanteigado que nos fez pensar em passagem por madeira, mas de fato não há estagio em barrica. Retrogosto mineral e acidez na medida, mostrando que foi ótima escolha para acompanhar os risotos de camarão experimentados: camarão com gengibre e camarão com nozes e gorgonzola. O vinho acompanhou bem as brusquetas de entrada, os tomates não estavam ácidos. Já a harmonização com o risoto de camarão com gengibre foi perfeita, vinho e prato em paridade na harmonização.

Esse chardonnay se mostra elegante para acompanhar a altura nossos pratos (e o calor!) de verão, não nos privando do prazer de degustar um bom vinho mesmo com o termômetro acima dos 30°C. 🙂

*R$ 40

CHILE

Harmonização na Dieta

Hoje foi dia de dieta. Fim do ano chegando, é preciso segurar as “calorias” para chegar em 2012 apresentável. 😛

Vida difícil, ainda mais sendo mulher e enófila. Dieta sim, mas sem jamais deixar o vinho de lado!

Minha harmonização tinha tudo pra dar errado, mas eu gosto mesmo é de arriscar. Queria beber um tinto. E pronto. Mas a dieta pedia uma sopinha, caprichada, mas de legumes: aipo, cenoura, tomates, cebola… Ai meu Deus! Como harmonizar? O único toque de carne foi um caldinho (de verdade mesmo!) que tinha guardado em forminhas de gelo no congelador. Caprichei no alho e na pimenta para dar um pouco mais de corpo à sopinha.

Acabei cedendo à pressão interna da sommeliere dentro de mim e abri mão do
tinto em favor de um rose. Seria menos transgressor.

A pedida foi o bom rosé da Vinícola Luiz Argenta, um corte de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot e Syrah. Diria que é um rose bem “amostrado”, corte bem suntuoso para um rosé, não? 🙂

Ao final, a harmonização foi ótima. A sopa ficou deliciosa. Levíssima, mas com a presença marcante das especiarias. Sim! O vinho sobressaiu um pouco à sopa, mas definitivamente não se trata de perda na harmonização. Afinal era exatamente isso que eu buscava: um vinho que “elevasse” uma refeição leve demais para os meus padrões gastronômicos.

Confesso que senti falta do pãozinho com azeite, que sempre casa bem com o vinho. Mas paciência. Tem dias que não dá pra ter tudo…