Do Alentejo para Angola: Esporão Reserva 2009

20130131-133827.jpg

Fazia um bom tempo que não tomava um vinho Herdade do Esporão, uma das minhas vinícolas portuguesas preferidas. Ando vivendo uma relação de amor e ódio pelos vinhos portugueses. Amor por possibilitarem praticamente 99% das minhas degustações deste lado de cá do Atlântico. Ódio justamente pelo mesmo motivo: acabam sendo sempre eles na taça.

A experiência do gosto, tão bem colocada por Jorge Lucki, requer mesmo variância para que as degustações não virem simplesmente eventos sociais, muito embora seja realmente preciso esquecer a técnica em (muitos!) momentos.

Em todo exercício de experimentação tudo muda o tempo todo, seja lentamente, seja drasticamente. Qual será a nossa disposição em aceitar estas mudanças é bem o cerne da questão. Desconstruções de harmonização, de ritual e até de preferências. Acho que nunca é tarde pra perceber o que ora passou despercebido, ou não avaliável, e o que hoje se impõe como realidade, ou o que desejamos de realidade.

Verdade que minhas degustações hoje em nada lembram aquelas de tempos atrás. Antes foco, hoje adorno. Peguei-me pensando em quão displicente estou sendo ao ritual, que outrora defini tão claramente. Mas percebi que não trata-se de displicência mas de olhar por outro ângulo, difuso. E deste novo ângulo o contexto e o vinho, embora desfocado, têm paradoxalmente uma intensidade nunca antes experimentada…

O vinho: Esporão Reserva 2009

Este corte de aragonês, trincadeira, cabernet sauvignon e alicante bouschet da Herdade do Esporão realmente me agrada. Aliado a isso minha saudade da cabernet me fez perceber que não posso ficar muito tempo sem ela! No nariz me confortou, sendo bastante aromático, em contraposição aos vinhos quase nada aromáticos que tenho degustado, com aromas de frutas vermelhas e um leve abaunilhado. Vinho de personalidade e complexidade, com bom corpo e taninos muito marcantes, vivos. A acidez também segura o vinho, só demonstrando no final persistente um leve desequilíbrio, uma discreta deselegância, que pra mim (um tanto cansada de vinhos tão redondos) foi a “cereja do bolo”. Sem duvida, um vinho na amplitude requerida.

* U$ 36, Casa dos Frescos, Luanda/Angola

PORTUGAL

Comida portuguesa, vinho português!

20120531-214331.jpg

Coitado do blog, mais uma vez abandonado por conta de mudanças, e que mudanças! Me vi nas últimas semanas completamente impossibilitada de postar, vivendo de malas e de estresse pré-embarque.

Mas… voltemos ao foco, que hoje é Paulo Laureano. Produtor, agrônomo e enólogo português de renome, tem os vinhos alentejanos que eu chamaria de não somente corretos mas muito bons e com um excelente custo benefício. Na última semana ele acabou sendo unanimidade na minha taça.

No almoço mais que especial do domingo, o da linha premium ganhou fácil de um bordeaux bem mais caro, esse postarei depois. Já na terça estive no Rio, numa passagem rápida, para um almoço no Adegão Português e a pedida foi novamente um Paulo Laureano. Desta vez foi o vinho de entrada da vinícola, o clássico em versão 1/4 de garrafa pois infelizmente não fui acompanhada no vinho (ninguém merece essa coca-cola aparecendo na foto). A comida estava estupenda, e foi para lembrar as boas últimas aulas de enogastronomia de Santanita que pedi um bacalhau a Brás para acompanhar.

O vinho: Paulo Laureano Clássico 2009

Vinho elaborado com as castas típicas portuguesas: aragonês (a tempranillo espanhola), trincadeira e alfrocheiro. Bastante fácil e aromático, frutas vermelhas e negras e um tanto de especiaria. Bem elaborado, taninos finos, macios, corpo ligeiro, boa acidez. Daqueles vinhos certos pra acompanhar refeições sem medo de errar, funcionou muito bem não só com o prato principal como também com os bolinhos de bacalhau incríveis servidos de entrada.

Apesar do almoço extremamente rápido para tanta conversa e tantos assuntos em pauta, o vinho fez o seu papel. Só espero que da próxima vez, como de costume, ele volte a tomar o lugar da coca-cola no outro canto da mesa. 😉

* R$ 26, www.adegacuritibana.com.br

PORTUGAL

Na sexta, embate com tempranillos

20120114-085704.jpg

A sexta foi de dois espanhóis potentes, cheios de vida. Um belo embate entre Rioja e Ribera del Duero, um de 2001 e o outro de 2006. Ambos os cortes com predominância da típica espanhola: tempranillo. Importante lembrar que a tempranillo é a mesma casta que em Portugal chama-se Tinta Roriz e também Aragonês.

– Beronia Reserva 2001
– Condado de Haza Crianza 2006

A noite prometia MUITO. Saída do trabalho, belos vinhos, ótimo lugar (o querido Speciali), boa comida, excelentes companhias. Mas como diz a máxima do twitter “a sexta sempre promete… mas nunca cumpre“. Foi o que aconteceu. Eu imaginando curtir ótimos rótulos, e pensando no material pro blog, percebendo todas as nuances do belíssimo embate cujas diferenças, perante as semelhanças, são bem claras: a diferença aromática, persistência, carga tânica, retrogostos, o terroir. Quando de repente a noite… desandou, perdeu todo o sentido, perdeu o embate.

Nao tem jeito. Vinho é isso. É estar confortável. É estar de bem. Parafraseando Ortega y Gasset: “Somos nós e nossas circunstâncias”.

Em respeito aos vinhos da noite fiz questão de não avaliá-los. Eles não mereciam qualquer reticência do meu ~estado de espírito~.

Esta foi a noite de dois grandes vinhos. Sem notas porque não estive à altura deles. Só posso deixar aqui, como forma de me redimir, minha reverência a eles na expectativa de uma nova e melhor oportunidade!

* R$ 100, o Beronia Reserva na www.wine.com.br (safra 2006)
* R$ 116, o Condado de Haza Crianza na www.mistral.com.br (safra 2007)