A falácia: Mouton Cadet

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Fonte: wine.com.br

Compartilho um clube de vinhos da wine.com.br, que consiste numa “associação” para recebimento mensal de 2, 4 ou 6 garrafas. Sempre dois rótulos diferentes em cada mês. Acho a idéia bacana para aqueles que querem se familiarizar com a bebida pois cada garrafa sai entre R$ 40 e R$ 50 sendo que todo mês você recebe dois rótulos diferentes pra degustar. Tudo bem que rolam aquelas mega negociações, às vezes de coisas não tão boas, mas no geral a experiência tem sido bem positiva no sentido de ter acesso a bons vinhos, vinhos corretos, a um preço justo.

O meu grande problema foi o clube deste mês de janeiro. Olha, nada contra a Wine mas tudo contra esses rótulos Mouton Cadet. Esses rótulos estão infestados por todo lugar sendo vendidos como “segundo vinho” (imaginem mil aspas) da MoutonRothschild. Não se trata de um segundo vinho, trata-se de um vinho totalmente comercial do grupo do grande chateau de bordeaux, elaborado (por terceiros) com uvas de qualquer vinhedo da região, e somente mesclados e engarrafados pelo grupo. Não entendo porque cargas d’água se criou essa lenda de que ele seria um segundo vinho da MoutonRothschild

A gigantesca MoutonRothschild tem assumido esse caráter bastante comercial, e entendam não sou contra, mas para isso tem carregado mais em ~marketing de ilusão~ do que nos vinhos em si. Colocando garrafas a rodo no mercado e até (vou ser purista agora) desmerecendo a história vinícola da marca. Esses Mouton Cadet do clube são agora “Reserve” e fazem referência às regiões de Bordeaux: Graves e Medoc. Oi?

Não dá pra levar muito a sério rótulos que parecem duvidar da inteligência do consumidor ao dar tanta importância ao label, utilizando-se nao só do peso do nome Baron Philippe de Rothschild como também das regiões de bordeaux, obviamente tentando conferir à garrafa um caráter de vinho TOP de bordeaux quando na verdade trata-se de um bordeaux genérico, desses montes que se produz na Franca, e que são vendidos em supermercados por 5 euros.

Compra quem quer. Mas acredito que bons produtos não necessitam de marketing apelativo. E ao levar em conta o quanto se tem investido em marketing para infestar os lugares com esses rótulos Mouton Cadet, tenho certeza que faremos muito melhor escolhendo rótulos do “novo mundo” neste mesmo patamar de preço. Muito provavelmente serão vinhos BEM superiores.

Mas enfim. Como estes Mouton Cadet já estão pagos, em breve deverão aparecer as avaliações no blog. Ou não…

Bordeaux: Chateau Haut-Bergey 2003

“Gosto, cada um tem o seu.”

Foi assim que iniciou a discussão em torno desse vinho. Degustado em trio perguntei, antes da minha impressão, o que achavam dele. A adoradora da França, foi extremamente parcial: “Adorei. Adoro os bordeaux!”. O outro meio sem saber como avaliar falou: “Gostei. Não gosto de vinho ~velho~ mas gostei desse”. Oi?

Nada melhor do que um bordeaux como segundo vinho do ano para duelar com o italiano da noite anterior. Mas… Perdeu feio! 😛

Eu tinha criado uma certa expectativa em torno deste vinho pois já havia lido avaliações muito positivas em outras safras. Corte bordalês com apenas cabernet sauvignon e merlot. O vinho tem uma cor granada, já demonstrando a evolução dele. Aromas um tanto fechados, cujo tempo de taça nem favoreceu tanto. Tem um aroma herbáceo bem característico, o que me desagrada um pouco. Já os taninos são bem macios, a acidez equilibrada e boa persistência. Na verdade é um bom tinto, mas a meu ver faltou uma certa complexidade, típica dos bordeaux. Acredito tratar-se de uma safra já PRONTA, passando de pronta. Me preocupou até as duas garrafas que ainda restam na adega.

Ao menos fiquei feliz porque o vinho agradou aos meus companheiros de taça e rendeu boas conversas, mas a mim ficou um pouco a frustração por um bordeaux sem tanto brilho… Realmente, gosto cada um tem o seu. E no duelo Italia versus França, deste início de 2012, a Itália saiu bem na frente!

*não achei referência atual de preço, mas paguei R$ 115 há seis meses na www.vinistore.com.br

FRANÇA

Bordeaux. Os sempre clássicos Crus…

Eu juro que evitei escrever este post. Mas não deu. Não queria falar de Bordeaux tão cedo no blog, mas convenhamos que é bem difícil deixar passar esses grandes clássicos, e como esta degustação aconteceu em novembro não poderia deixar “virar o ano” sem falar dela. Essa degustação foi organizada pela Adega Tio Sam (Salvador/BA) para a promoção dos rótulos Grand Cru Classé que eles estão importando agora com exclusividade. A degustação foi conduzida por Rafael Puyau de maneira bem didática e contou com a presença de membros da ABS-BA e enófilos.

A classificação oficial dos vinhos de Bordeaux aconteceu em 1855, quando foram classficados 58 châteaus (vinicolas) em 05 crus: Premiers Cru, Deuxièmes Cru, Troisièmes Cru, Quatrièmes Cru e Cinquièmes Cru. Esta lista sofreu pouquissimas alterações de lá pra cá, e hoje conta com 61 châteaus.

Para esta degutação foram quatro rótulos, só faltou um Premier Gran Cru:

  • Deuxième Crus: Château Gruaud Larose 2005 | Saint – Julien (R$ 430,00)
  • Troisième Crus: Château La Lagune 2005 | Haut – Médoc (R$ 590,00)
  • Quatrièmes Crus: Château Prieuré – Lichine 2007 | Margaux (R$ 210,00)
  • Cinquième Crus: Château Lynch-Bages 2007 | Pauillac (R$ 520,00)

Impressionante o padrão dos vinhos. Sejam os aromas, o ataque em boca, a elegância. Todos sofremos para classificá-los em ordem de preferência. A degustação foi bem pensada: pequena variação nas safras (2 rótulos 2005 e 2 rotulos 2007), quatro AOCs distintas, as porcentagens dos cortes variavam pouco dentro do corte bordalês (Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Petit Verdot). Eu jurava ter adivinhado o vinho com maior participação da Merlot (minha uva preferida, que vai merecer um post só dela), mas errei feio. 😛

Uma ponto que levantei, e que acredito ser uma boa discussão sobre os vinhos de Bordeaux, foi a facilidade no degustar. Infinitamente “mais fáceis” que os Barolos e Brunellos italianos de safras próximas. Muito aromáticos, mesmo sem tanto tempo de taça (apenas um deles sofreu mais) nos lembrou o padrão “Novo Mundo”, que foi de certa forma imposto por Robert Parker. Seriam os classudos Bordeaux se rendendo a “parkerização” na enologia?

Engraçado que no ranking (a degustação foi às cegas) o vinho que teve a última colocação foi justamente o mais caro, foi o que precisou de mais tempo na taça e tinha os taninos menos domados. Certamente deve ser o mais longevo. Mas verdade seja dita, o nível dos vinhos é muito equiparado.

Fato é que degustar bons Bordeaux é ser transferido imediatamente à França. É sentir em cada gole o terroir totalmente distinto de qualquer outro lugar que produza vinhos e que utilizem as proporções do corte bordalês. Não tem jeito: reverência à França e sua história enológica sempre!