Bordeaux: Chateau Haut-Bergey 2003

“Gosto, cada um tem o seu.”

Foi assim que iniciou a discussão em torno desse vinho. Degustado em trio perguntei, antes da minha impressão, o que achavam dele. A adoradora da França, foi extremamente parcial: “Adorei. Adoro os bordeaux!”. O outro meio sem saber como avaliar falou: “Gostei. Não gosto de vinho ~velho~ mas gostei desse”. Oi?

Nada melhor do que um bordeaux como segundo vinho do ano para duelar com o italiano da noite anterior. Mas… Perdeu feio! 😛

Eu tinha criado uma certa expectativa em torno deste vinho pois já havia lido avaliações muito positivas em outras safras. Corte bordalês com apenas cabernet sauvignon e merlot. O vinho tem uma cor granada, já demonstrando a evolução dele. Aromas um tanto fechados, cujo tempo de taça nem favoreceu tanto. Tem um aroma herbáceo bem característico, o que me desagrada um pouco. Já os taninos são bem macios, a acidez equilibrada e boa persistência. Na verdade é um bom tinto, mas a meu ver faltou uma certa complexidade, típica dos bordeaux. Acredito tratar-se de uma safra já PRONTA, passando de pronta. Me preocupou até as duas garrafas que ainda restam na adega.

Ao menos fiquei feliz porque o vinho agradou aos meus companheiros de taça e rendeu boas conversas, mas a mim ficou um pouco a frustração por um bordeaux sem tanto brilho… Realmente, gosto cada um tem o seu. E no duelo Italia versus França, deste início de 2012, a Itália saiu bem na frente!

*não achei referência atual de preço, mas paguei R$ 115 há seis meses na www.vinistore.com.br

FRANÇA

Um grande chileno: EPU 2008

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Foto de celular à noite é uma desgraça...

Eu adoro cozinhar. Na verdade adentrei ao mundo dos vinhos pela porta da  gastronomia. Por conta dos programas de Claude Troisgros e Atala, das aulas, dos livros e revistas de gastronomia. Mas tenho que confessar que tenho cozinhado quase nada! A preguiça me consome! O que é bem frustrante tendo em vista que cozinhar pra mim é um exercício de muito prazer. Mas outro dia discorro mais, muito mais, sobre este assunto que merece posts específicos, afinal comida e vinho é a mais completa combinação.

Tudo isso posto para dizer que a cozinha da minha casa agora fica na esquina da minha rua e atende pelo nome de Speciali! É uma pizzaria bem charmosa, com pizzas cheias de bossa e algumas entradinhas legais. O serviço e o ambiente são ótimos e a carta de vinhos do restaurante é muito boa, e feita corretamente, uma exceção ainda hoje!

Mas nesta noite de terça, a carta do Speciali foi deixada de lado e levamos o vinho! Compramos o EPU no lançamento da safra 2008 no www.wine.com.br. Trata-se do “segundo vinho” da vinícola boutique Almaviva, do enorme grupo Concha Y Toro. A expectativa era grande, afinal o Almaviva é um rótulo de imponência aos chilenos. No rótulo faz-se referencia ao corte bordalês com predominância da Cabernet, mas não informa quais outras cepas participariam. Eu acredito que tenha um pouco de carmenere, por fazer parte historicamente do corte bordalês embora não exista mais na França, só no Chile. Graduação alcoólica relativamente alta 14,5%, seria a presença de merlot?

Mas que grande Cabernet! Muito escuro (seria a Merlot?). Bastante aromático. Demos algum tempo de taça a ele mas nem era necessário tanto. Aromas típicos da cepa: pimenta do reino, pimentão. Muita fruta madura e também aromas terciários incluindo baunilha. O vinho em boca é um veludo (seria a Merlot novamente?), com o ataque típico da Cabernet. Discorremos sobre a diferença do “aveludado” em um cabernet e o “aveludado” de um Pinot Noir por exemplo, como o ataque e persistência posterior é diferente. É um vinho de bom corpo, que acompanhou bem a pizza de calabresa de javali, mas que com uma bela carne de churrasco seria perfeito! Taninos muito elegantes e acidez perfeita. Sem dúvida é um vinho equilibrado, harmônico.

Terminamos a garrafa do EPU com aquela sensação de querer mais que só os grandes vinhos proporcionam, e discutindo se seria um vinho que melhoraria com o tempo de guarda, daqui pra frente. Pra mim trata-se de um vinho PRONTO, que tem longevidade claro, mas não acredito que ganhará com o tempo na garrafa. Bem, acho que essa foi a única discordância da noite… 😉

Para o EPU 4 taças seria pouco. Mas 5 taças o colocaria como vinho perfeito, o que para os tintos especialmente, é bem complexo. Portanto além de didádico, as 4 taças e meia acabam por o defininir muito bem! A meia taça faltante é o misterio do que “ainda falta” neste grande rótulo!

*R$ 190 (www.wine.com.br)

CHILE

Bordeaux. Os sempre clássicos Crus…

Eu juro que evitei escrever este post. Mas não deu. Não queria falar de Bordeaux tão cedo no blog, mas convenhamos que é bem difícil deixar passar esses grandes clássicos, e como esta degustação aconteceu em novembro não poderia deixar “virar o ano” sem falar dela. Essa degustação foi organizada pela Adega Tio Sam (Salvador/BA) para a promoção dos rótulos Grand Cru Classé que eles estão importando agora com exclusividade. A degustação foi conduzida por Rafael Puyau de maneira bem didática e contou com a presença de membros da ABS-BA e enófilos.

A classificação oficial dos vinhos de Bordeaux aconteceu em 1855, quando foram classficados 58 châteaus (vinicolas) em 05 crus: Premiers Cru, Deuxièmes Cru, Troisièmes Cru, Quatrièmes Cru e Cinquièmes Cru. Esta lista sofreu pouquissimas alterações de lá pra cá, e hoje conta com 61 châteaus.

Para esta degutação foram quatro rótulos, só faltou um Premier Gran Cru:

  • Deuxième Crus: Château Gruaud Larose 2005 | Saint – Julien (R$ 430,00)
  • Troisième Crus: Château La Lagune 2005 | Haut – Médoc (R$ 590,00)
  • Quatrièmes Crus: Château Prieuré – Lichine 2007 | Margaux (R$ 210,00)
  • Cinquième Crus: Château Lynch-Bages 2007 | Pauillac (R$ 520,00)

Impressionante o padrão dos vinhos. Sejam os aromas, o ataque em boca, a elegância. Todos sofremos para classificá-los em ordem de preferência. A degustação foi bem pensada: pequena variação nas safras (2 rótulos 2005 e 2 rotulos 2007), quatro AOCs distintas, as porcentagens dos cortes variavam pouco dentro do corte bordalês (Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Petit Verdot). Eu jurava ter adivinhado o vinho com maior participação da Merlot (minha uva preferida, que vai merecer um post só dela), mas errei feio. 😛

Uma ponto que levantei, e que acredito ser uma boa discussão sobre os vinhos de Bordeaux, foi a facilidade no degustar. Infinitamente “mais fáceis” que os Barolos e Brunellos italianos de safras próximas. Muito aromáticos, mesmo sem tanto tempo de taça (apenas um deles sofreu mais) nos lembrou o padrão “Novo Mundo”, que foi de certa forma imposto por Robert Parker. Seriam os classudos Bordeaux se rendendo a “parkerização” na enologia?

Engraçado que no ranking (a degustação foi às cegas) o vinho que teve a última colocação foi justamente o mais caro, foi o que precisou de mais tempo na taça e tinha os taninos menos domados. Certamente deve ser o mais longevo. Mas verdade seja dita, o nível dos vinhos é muito equiparado.

Fato é que degustar bons Bordeaux é ser transferido imediatamente à França. É sentir em cada gole o terroir totalmente distinto de qualquer outro lugar que produza vinhos e que utilizem as proporções do corte bordalês. Não tem jeito: reverência à França e sua história enológica sempre!