O gewurztraminer da frustração

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São engraçados esses paralelos inevitáveis dos vinhos com a própria vida. Ouso dizer que sempre é possível fazer algum, às vezes só falta um pouco de paciência pra descobrir.

Os bons brancos tem sido cada vez mais raros no meu convívio, seja pela preferência dos grupos de bebedores pelos tintos, seja pelo acesso um pouco restrito que tenho tido hoje aos brancos jovens, vivos. Saudade do ótimo torrontés da Serrera, do Doña Paula então nem se fala!

Após um “banho de água fria” e um planejamento de 2 meses jogados no lixo, tudo que desejava era um bom riesling, aromático, jovem, acidez viva. O que tinha era um gewurztraminer californiano que consegui trazer da ultima viagem. Péssima escolha na roleta dos vinhos americanos. Tudo bem, eu sei que fui audaciosa e que não poderia esperar muito!

O vinho: Fetzer Gewurztraminer 2010

Varietal simples da vinícola Fetzer que tem como grande destaque o “manejo sustentável” que, pelo que entendi, seria um passo anterior aos biodinâmicos que andaram pipocando por aí. É um típico vinho de regiões quentes, aromas de fruta muito madura, caramelizada, sem frescor algum. Na boca um vinho chato, sem acidez, onde o máximo que consegue-se degustar é meia taça. É um vinho que dá até preguiça de descrever. Foi também pro lixo. Ok, safra 2010, velho para um “branco-pra-ser-bebido-jovem”, mas posso apostar que mesmo em 2010 a acidez e os aromas enjoativos deixariam a desejar. É o típico vinho experimentativo de adega ou que o produtor, para não perder a safra de um ano exageradamente quente, resolveu ainda assim vinificar. É o que quero crer!

Como resumo da experimentação dupliquei a frustração: agora é esquecer o planejamento perdido degustando bons vinhos, logo logo, em uma bela expressão de terroir. Desta vez acompanhada dos tintos. Que me aguarde! 🙂

* U$ 20, em algum recanto de Las Vegas

EUA

1 TAÇA BRANCO

Um ótimo Zinfandel em Vegas

20130102-232651.jpgLas Vegas carece de lojas de vinhos!

Um destino de luxo, onde tudo tem proporções fora de qualquer realidade, falta… vinho. As cartas de bons restaurantes são bastante “comedidas” com algumas exceções, claro. Nos centros de compras, onde não falta imponência, sobram bons charutos, Prada, Chanel, Cartier, Rolex mas faltam wine stores. Devo confessar que a viagem não tinha este tipo de propósito, e nem pesquisei a respeito, mas imaginava que seria natural ter contato com boas lojas vendendo os clássicos norte americanos, assim como os grande chilenos, argentinos e os do velho mundo. Tinha a pretensão de quem sabe degustar um Opus One, mas não vi nem de longe…

Ainda assim alguns rótulos foram degustados: um riesling de mosel com comida japonesa, um péssimo rosé de zinfandel com açúcar residual em excesso e até um sparkling da Chandon norte americana. No entanto a melhor escolha da viagem foi o ótimo zinfandel de Napa Valley, na verdade um assemblage com cabernet, syrah e outras cepas em minoria, onde a zinfandel entra com 51% do corte, que foi degustado no restaurante de tapas Julian Serrano do Hotel Aria. Ambiente bastante agradável, comida muito bem apresentada numa reinvenção mais “classuda” das tapas. A carta de vinhos é bastante vasta sem perder o foco nos vinhos espanhóis, porém como estava nos EUA seria adequado escolher um exemplar de lá. A rebatizada zinfandel, cepa italiana conhecida como primitivo, achou realmente seu lugar no terroir norte americano. Eu particularmente gosto muito da expressão da cepa em tal terroir, realmente não se comparando, no geral, aos exemplares italianos.

O vinho: The Prisoner 2009 – Orin Swift

Aromas de especiarias e de frutas negras em calda, em especial amoras e framboesas, um pouco de álcool sobra no nariz, afinal trata-se de um vinho de 15.2 de gradação alcoólica. Gradação elevada é típico dos vinhos de zinfandel, pelo alto teor de açúcar da casta, e portanto baixar um pouco a temperatura de serviço ajudaria a minimizar essa “sobra”. Bastante leve na boca, um pouco de álcool sobrando também, porém bastante frutado, pouca presença do marcante carvalho americano por vezes exagerado dos vinhos produzidos nos EUA. Taninos quase macios e acidez bastante presente. Um vinho bem vivo, uma complexidade entre aromas, retrogosto (um leve amargor que não consegui desvendar a origem ou se seria algum defeito), taninos e acidez que muito me agrada.

Foi sem duvida uma boa surpresa de rótulo. Agora a expectativa é de na próxima ida a Las Vegas (será?) conseguir descobrir onde se escondem as wine stores e as melhores cartas pra desfrutar também dos vinhos no nível de desfrute que uma cidade como Vegas exige! 🙂

* U$ 72, no restaurante Julian Serrano, Aria Resort e Casino

EUA

Pinot noir Californiano

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Mais um pinot noir aparecendo por aqui. Agora um californiano de Napa. Isso pra mostrar minha atual insistência com a casta que um amigo ao defini-la chamou de “vinho tinto de mulherzinha”. Minimizando o caráter talvez misógino do comentário esta é a opinião meio que geral. Vinhos fáceis, elegantes, sem grande corpo, e que agradam à maioria. Mas pra mim está justamente aí o perigo.

O vinho: Beringer Pinot Noir 2007

Assim como o pinot da patagônia esse vinho está longe da expressão da casta na França. Claro que não dá pra colocar tanta fé num pinot de Napa, mas vale pela diversidade. Fala-se muito da qualidade dos rótulos da Nova Zelândia, que ainda não tive oportunidade de experimentar.

Esse é um vinho simples, de acidez um tanto desequilibrada, mais elegante do que o da patagônia, mas ainda assim nao configura uma boa compra para a casta. Continuo preferindo os pinot da borgonha, e não me refiro aos TOPs.

*U$ 25, www.beringer.com

FRANÇA

Um vinho de Coppola

A entrada de Francis Ford Coppola no mundo dos vinhos foi noticiada mundo a fora e a sacada de marketing que um label desses traz, o fez vender (e aumentar os preços de) muitos vinhos.

Confesso que quando vejo essas notícias de celebridades lançando “seus vinhos” nem me interesso muito pelo conteúdo. Me parecem vinhos carregados de marketing de vendas e ponto. Mas quando vi um rótulo do Coppola na Pizzaria Veridiana, em SP, achei que seria uma boa oportunidade de experimentar.

O vinho: Francis Ford Coppola Presents Rosso 2009

Este vinho é um corte de Zinfandel, Cabernet Sauvignon e Syrah. Na verdade foi o corte que primeiro me interessou, e não o Coppola. O vinho é inicialmente bem fechado aromaticamente, depois de um tempo de taça vai abrindo e revelando os aromas de frutas vermelhas e pretas, maduras. Em boca pensei tratar de um vinho mais macio pelo corte em si, no entanto o vinho mostra bem a personalidade da cabernet com taninos bem presentes. O vinho tem bom corpo e boa acidez mas esperava mais elegância neste corte. Harmonizou bem com a pizza, especialmente a de calabresa apimentada.

No fim a experiência valeu pra tirar um pouco do preconceito com os vinhos do Coppola. Se como cineasta ele é pra mim hour concour, nos vinhos ele ainda é um mero iniciante! 😉

*R$ 75, www.emporiomercantil.com.br

EUA

 

Californianos em foco

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Estar em São Paulo é passar por dúvidas cruéis: participo de uma degustação de rótulos franceses, italianos ou…americanos?

Escolhi o menos óbvio, claro! Na Smart Buy Wines fomos levados à Califórnia, especialmente Napa Valley, com seus vinhos e tipicidade. A loja, que é especializada em vinhos californianos, levou para esta degustação três rótulos de Napa: um chardonnay clássico da região, um cabernet em corte bordalês e um syrah.

Hoje os EUA são o quarto produtor mundial de vinhos, perdendo apenas para França, Itália e Espanha, o que justifica a importância que tem ocupado a cada dia neste mercado.

Os vinhos degustados, bem típicos do estilo americanos com muita extração e madeira, foram:

  • Chateau Montelena Chardonnay 2008: estágio de 10 meses em carvalho francês. O clássico chardonnay de Napa, R$ 160 (375ml)
  • Educated Guess Cabernet Sauvignon 2009: passagem de 12 meses em carvalho americano e francês. R$ 125
  • Novy Syrah 2009: estágio de 15 meses em carvalho francês. R$ 109

O sommelier da casa, Marcos Martins, também levou vários aromas naturais para o exercício das percepções olfativas em cada vinho. Didático e divertido. Engraçado como esse ambiente de vinhos propicia a integração das pessoas e como a identificação, através dos vinhos, é uma coisa forte.

Os vinhos da noite nem me encantaram tanto, mas trouxe de lá dois outros rótulos para experimentar, e novos companheiros de vinho para a posteridade!

Robert Mondavi Private Selection 2006

Esse foi um dos vinhos degustados no Peru numa (des)harmonização bem louca. Eu naquela sede de experimentar acabei nao me prendendo tanto a uma harmonização perfeita. Rolou de tudo com esse vinho, mas o prato principal foi cuy com papas, que ele acompanhou adequadamente.

Um Robert Mondavi Private Selection 2006, elaborado com predominância da cabernet sauvignon (há também, em pequeno percentual, syrah, merlot e outras castas para equilibrar o blend). Em sua perfeita forma! Se tiver um 2006 na adega deguste logo! Sob pena de experimentar depois um vinho morto.

Começamos com o vinho, para ao menos a avaliação dele ser livre de uma harmonização duvidosa. O vinho é bem redondo, bom corpo, taninos macios e acidez baixa, um tanto perigosa, (minha eterna obsessão pela acidez), mas com toda a robustez que se espera de cabernet. Uma boa persistência olfativa e também na boca.

Trata-se de um vinho correto, mas bem característico da “parkerizaçao“, com muita extraçao de fruta madura. Um pouco mais de complexidade lhe cairia muito bem!

* R$ 85, www.vinhocracia.com.br (safra 2007)

EUA

 

Filmes!!

Bons filmes independem da temática, certo? Pois é, no caso dos vinhos não é diferente. Mesmo não sendo dramas de Almodovar, que eu amo, estes três filmes que indico são realmente muito bons!

Não seria exagero nenhum dizer que Sideways levou às adegas muitos dos que o assistiram. E não só isso: Sideways foi responsável por uma mudança drástica
no distrito de San Luis Obispo na Califórnia/EUA. Onde antes do filme não havia nada, de repente triplicou-se a produção de Pinot Noir e tornou-se uma das mais importantes áreas de enoturismo dos EUA. Não necessariamente pelos “bons vinhos” :P.

Pra mim três filmes cujo tema é o vinho, se destacam:

O Julgamento de Paris (2009): baseado na historia real do grande evento, em 1976, que mudou a forma como se via o vinho, e que abriu as portas do “Novo Mundo” para um mercado na época ainda restrito aos produtores do “Velho Mundo”. Impressionante perceber como uma degustação às cegas derrubou Chateaus franceses e projetou vinícolas californianas ao padrão dos grandes produtores. Foi a partir do julgamento de paris que os antigos produtores perceberam que havia sim concorrentes a altura, terroirs alternativos. Foi o resultado e a repercussão deste evento que tirou os produtores clássicos da inércia cômoda de que grandes vinhos só se produziam no eixo França-Itália.

Mondovino (2005): documentário espetacular sobre o negócio do vinho. Acredito ser exatamente o contraponto ao ocorrido no Julgamento de Paris. Interessante perceber o quanto se perdeu do “romantismo” na produção de vinhos para atender as “demandas do mercado”. O filme mostra a todo momento, a diferença entre os grandes produtores versus os pequenos, que ainda fazem deste oficio algo de esmero, muita paixão e paciência. Se discorre sobre o quanto da pressa em colocar as garrafas à venda mudou o mercado, o quanto a opinião de críticos (especialmente Robert Parker) determinou o padrão de “vinho bom” e tirou um tanto da diversidade de algumas vinícolas. Tais vinícolas transformaram seus rótulos em uma padronagem: para receber boas notas de tais críticos.

Sideways (2004): esse filme, de ficção, todos deveriam assistir, mesmo sem gostar muito da bebida. É um drama que se passa entre vinhedos e taças de vinhos que deixam o expectador numa vontade enorme de também degustar. O filme, além do crescimento que trouxe à região onde foi filmado, incrementou muito o consumo de Pinot Noir nos EUA, mas como nem tudo são flores, também relegou a queridinha Merlot a um status injusto, o que fez a venda de vinhos com esta cepa despencassem nos EUA. Mas a chave de ouro, sutil na verdade, é justamente o paradoxo do protagonista (que é a contradição em pessoa) que, ao mesmo tempo que diz odiar Merlot, tem como grande jóia da sua adega pessoal um Chateau Cheval, cujo corte bordalês inclui a Merlot. 😀

Nada como abrir uma garrafa de vinhos pra assistir estes filmes…