J.P. CHENET: o francês “dos fundos”

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Eu não sabia, mas esse vinho é bastante popular e consumido no Brasil. Nunca o tinha visto e de cara a garrafa me chamou a atenção: “Isso definitivamente não é vinho”, pensei eu. Garrafa bojuda, mas não tão alta como as dos espumantes, e ainda com o gargalo meio inclinado (???). Parece mesmo é com aquelas garrafas de vinho de filmes de vikings.

Pois é vinho, e é francês. Mas sem qualquer AOC, é um vin de pays (o correlato dos IGTs italianos) daqueles que devem ser produzidos aos montes e encontraram o mercado brasileiro como consumidor ideal. É um corte de cabernet sauvignon e syrah e eu devo confessar que imaginei o pior. Mas… a proposta saiu melhor do que a encomenda.

O vinho: J.P. Chenet Cabernet Syrah 2011

A primeira sensação foi a sobra de álcool, ele tem 13 graus de gradação mas sobra um tanto especialmente na boca. Os aromas são singelos, no entanto nada descaracterizados, bastante harmônico, frutas vermelhas e algum toque de especiarias da syrah. Os taninos são demasiadamente macios, quase escondidos, especialmente pra um cabernet, porém tem acidez razoável, corpo ligeiro e um final frutado bastante agradável e de curta persistência. É um vinho fácil de beber, muito simples, meio seco, imagino que por açúcar residual, e que agora faz todo sentido sua fama no Brasil.

Confesso que fiquei numa enorme dúvida da nota, se duas ou três taças, porém acredito tratar-se sim de um vinho correto, não no meu estilo, mas sem dúvida é um vinho bem vinificado (com o que o terroir lhe proporciona em termos de fruta) e que tem seu espaço. Talvez a proposta em que ele tinha sido colocado em prova também tenha favorecido essa “uma taça a mais”, mas é assim mesmo, é impossível dissociar uma avaliação do seu momento, e há de se manter essa “subjetividade”. 😉

 R$ 32, www.adegacuritibana.com.br

FRANÇA

3 TAÇAS

Um Chateauneuf-Du-Pape pra chamar de seu

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Esse Chateauneuf-Du-Pape foi um presente, daqueles de responsabilidade, onde quem presenteia diz: “Esse é o meu vinho!”. Nestas ocasiões lembro de uma das minhas aulas de sommelier onde aprendi que o “estilo” de cada um, aquilo que mais vai lhe aguardar num rótulo, é mostrado muito pela personalidade. E vice-versa. Bons e observadores sommeliers sabem usar disso com primor.

Desta vez mais uma tentativa de harmonização com pizza. Na Speciali que é pra não perder o costume da boa pizza e do bom serviço em Salvador.

O vinho: Chateauneuf-Du-Pape La Bernardine 2007

A famosa apelação do sul do Rhône traz o clássico corte de grenache, syrah e mourvedre com estágio de 12 a 15 meses em carvalho francês.

No nariz frutas negras maduras, tosta, fumo e especiarias. Álcool marcante, que nos fez baixar um pouco a temperatura de serviço. Em prova um vinho completamente diferente do padrão “novo mundo” e que os bordeaux tem reproduzido também. Muita complexidade, final persistente, elegante, taninos macios, boa acidez. No retrogosto além das frutas, um tanto de madeira e algo terroso.

Não é a toa que a melhor harmonização dele foi com a entrada, muito bem escolhida para este rótulo: brusqueta de funghi, shimeji e shitake. A pizza foi muito pouco para o vinho, que após a brusqueta reinou soberano e em grande estilo.

* R$ 230 www.mistral.com.br

FRANÇA

Pinot da Borgonha

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Em contraponto ao pinot da patagônia de dias atrás veio este de borgonha. Claro que de um rótulo de cerca de R$ 140 num restaurante em São Paulo nao dá pra esperar um romanée-conti. Mas diante do que se espera de vinhos de pinot noir acredito que até os borgonhas mais simples acabam atendendo a contento.

O vinho: Pinot noir Bourgogne Roux Pere & Fils 2010

Este é translúcido e brilhante como é de se esperar. Cor muito aberta. No nariz bastante fruta vermelha ácida, morango e cereja. Na boca taninos domados, boa acidez, frescor e aquela elegância em corpo típica dos pinot.

Mais um ótimo rótulo pra acompanhar uma bela pizza. Foi nossa escolha novamente.

* R$ 88, www.vinhoszahil.com.br

FRANÇA

Agora sim um riesling de verdade!

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Minha casta branca do momento é sem dúvida a riesling. Talvez até motivada pela imensa dificuldade em encontrar exemplares dela nas lojas (normais) de vinhos.

Gosto muito do caráter extremamente marcante e aromático, as notas minerais e o frescor de frutas cítricas típicas do riesling. Minha grande frustração é experimentar muito pouco desta casta pois, não tem jeito, somos bombardeados de vinhos de chardonnay (normalmente embarricados) e sauvignon blanc nos permitindo menos provas de vinhos diferentes com riesling, gewustraminer, malvasia, torrontés, viognier, etc…

Mas, naquela velha questão de experimentação, ando em busca de evitar as castas “arroz-de-festa” e me permitir o desfrute de diferentes sensações. E eu que pessoalmente gosto de raríssimos sauvignon blanc preciso mesmo buscar alternativas brancas à chardonnay.

O vinho: Domaine Paul Blanck Riesling 2007

Um riesling da Alsácia, região que juntamente com a Alemanha, divide a soberania da melhor expressão da casta. Vinho elegante, frutado com maça verde e pêras (um tanto em caldas) e floral, aromático sem ser enjoativo e sem aromas de petróleo. Acidez na medida, bom corpo e persistência, com certa untuosidade e deixando a sensação: “Não estou bebendo mais do mesmo!”

Só sei que quero mais desse riesling! 😉

* R$ 100, www.boccati.com.br

FRANÇA

Acarajé e Abará com Vinho. Funciona?

Às vésperas do carnaval em Salvador a cidade respira isso: abadás, camarotes… Meu terceiro carnaval morando em Salvador, terceiro carnaval fugindo daqui nesse período. Definitivamente o carnaval daqui não faz “meu tipo”. No entanto a comida… é algo que me agrada até demais! Fazia algum tempo que não comia os corriqueiros quitutes daqui quando ontem, num desejo arrebatador, não pude fugir.

Eu não tenho conseguido mais ter uma refeição (almoço ou jantar) com refrigerante ou suco, pra mim ambos desfavorecem a comida. Tenho tentado colocar o vinho em mais ocasiões e quando não é possível a água tem funcionado. 😉 O acarajé e o abará são normalmente ótimos companheiros da cerveja mas por que não funcionaria também com vinho?

A escolha pra essa tentativa de harmonização foi um cremant rosé que conheci numa degustação realizada na Adega Tio Sam, aqui em Salvador. Achei que o rosé traria uma maior complexidade, do que um espumante normal, para acompanhar um alimento tão carregado em sabores: massa de feijão, camarão, vatapá. O frescor do espumante é imprescindível para a sensação do “limpar a boca” que precisamos após ingerir tamanha gordura, especialmente do dendê.

O vinho: Cremant de Limoux – Aimery Sieur D’arques Brut Rose

Trata-se de um corte de chardonnay, pinot noir e chenin. Aromas de frutas tropicais e um pouco de cereja. Perlage persistente. Ótima acidez e retrogosto com um tanto tostado, bastante elegante e harmônico, no nariz e na boca. Um ótimo espumante que agora, degustando pela segunda vez, percebo que nao fui complacente com ele.

Servimos o cremant bastante gelado e foi bebido fácil, fácil. Acompanhado da boa comida baiana, boa musica baiana (Gilberto Gil sempre!) e boa companhia baiana. Foi minha despedida de Salvador nesses dias de folia. 😉

* R$ 55 na Adega Tio Sam (Salvador/BA)

FRANÇA

Um rosé de Provence

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Vou confessar que nunca havia degustado um verdadeiro rosé, de Provence. A oferta de rosés no Brasil é bem restrita e nós acabamos por restringir ainda mais as ocasiões para degustá-los.

Outro dia, de maneira inédita, um amigo defendeu seu gosto pelos rosés e fiquei refletindo sobre a vida ingrata que esses rótulos levam. Como verdadeiro meio termo, paradoxalmente acaba mais se restringindo do que se ampliando. Quem quer um tinto nunca vai abrir mão dele em favor de um rosé. Já quando o branco se adequa mais, poucos trocam ele por um rosé.

Eu gosto muito da cor e da complexidade que ele agrega ao que seria um branco, e é mesmo mais versátil nas harmonizações. O rótulo de hoje foi degustado sem comida e sob o sol. 😉

O vinho: Domaines Ott Chateau de Selle Rose 2010.

Elaborado com Cabernet Sauvignon, Grenache, Syrah e Cinsault (também conhecida como Hermitage), o vinho frustou um pouco. Na taça ele é um salmão, bastante límpido, diferente dos rosés de fato rosados. No nariz ele é muito elegante mas sem tanta persistência, bastante fruta branca e um pouco floral. Com 13 graus de álcool, na boca achei ele meio sem ataque, considerando tratar-se de um rose de Provence vinificado com castas tão robustas. Faltou a acidez mais marcante no final (estou com a sensação de que a acidez tem sido uma espécie de divisor de águas para o meu gosto pessoal). A persistência é média.

É um bom rosé para bebericar despretensiosamente, com comida leve, muito leve, sem grandes firulas. Só não sei se vale a pena pelo preço dele no Brasil, não o encontrei em nenhuma loja on-line nacional.

* $ 39 na www.wine.com (não vende para o Brasil)

FRANÇA

A falácia: Mouton Cadet

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Fonte: wine.com.br

Compartilho um clube de vinhos da wine.com.br, que consiste numa “associação” para recebimento mensal de 2, 4 ou 6 garrafas. Sempre dois rótulos diferentes em cada mês. Acho a idéia bacana para aqueles que querem se familiarizar com a bebida pois cada garrafa sai entre R$ 40 e R$ 50 sendo que todo mês você recebe dois rótulos diferentes pra degustar. Tudo bem que rolam aquelas mega negociações, às vezes de coisas não tão boas, mas no geral a experiência tem sido bem positiva no sentido de ter acesso a bons vinhos, vinhos corretos, a um preço justo.

O meu grande problema foi o clube deste mês de janeiro. Olha, nada contra a Wine mas tudo contra esses rótulos Mouton Cadet. Esses rótulos estão infestados por todo lugar sendo vendidos como “segundo vinho” (imaginem mil aspas) da MoutonRothschild. Não se trata de um segundo vinho, trata-se de um vinho totalmente comercial do grupo do grande chateau de bordeaux, elaborado (por terceiros) com uvas de qualquer vinhedo da região, e somente mesclados e engarrafados pelo grupo. Não entendo porque cargas d’água se criou essa lenda de que ele seria um segundo vinho da MoutonRothschild

A gigantesca MoutonRothschild tem assumido esse caráter bastante comercial, e entendam não sou contra, mas para isso tem carregado mais em ~marketing de ilusão~ do que nos vinhos em si. Colocando garrafas a rodo no mercado e até (vou ser purista agora) desmerecendo a história vinícola da marca. Esses Mouton Cadet do clube são agora “Reserve” e fazem referência às regiões de Bordeaux: Graves e Medoc. Oi?

Não dá pra levar muito a sério rótulos que parecem duvidar da inteligência do consumidor ao dar tanta importância ao label, utilizando-se nao só do peso do nome Baron Philippe de Rothschild como também das regiões de bordeaux, obviamente tentando conferir à garrafa um caráter de vinho TOP de bordeaux quando na verdade trata-se de um bordeaux genérico, desses montes que se produz na Franca, e que são vendidos em supermercados por 5 euros.

Compra quem quer. Mas acredito que bons produtos não necessitam de marketing apelativo. E ao levar em conta o quanto se tem investido em marketing para infestar os lugares com esses rótulos Mouton Cadet, tenho certeza que faremos muito melhor escolhendo rótulos do “novo mundo” neste mesmo patamar de preço. Muito provavelmente serão vinhos BEM superiores.

Mas enfim. Como estes Mouton Cadet já estão pagos, em breve deverão aparecer as avaliações no blog. Ou não…

Bordeaux: Chateau Haut-Bergey 2003

“Gosto, cada um tem o seu.”

Foi assim que iniciou a discussão em torno desse vinho. Degustado em trio perguntei, antes da minha impressão, o que achavam dele. A adoradora da França, foi extremamente parcial: “Adorei. Adoro os bordeaux!”. O outro meio sem saber como avaliar falou: “Gostei. Não gosto de vinho ~velho~ mas gostei desse”. Oi?

Nada melhor do que um bordeaux como segundo vinho do ano para duelar com o italiano da noite anterior. Mas… Perdeu feio! 😛

Eu tinha criado uma certa expectativa em torno deste vinho pois já havia lido avaliações muito positivas em outras safras. Corte bordalês com apenas cabernet sauvignon e merlot. O vinho tem uma cor granada, já demonstrando a evolução dele. Aromas um tanto fechados, cujo tempo de taça nem favoreceu tanto. Tem um aroma herbáceo bem característico, o que me desagrada um pouco. Já os taninos são bem macios, a acidez equilibrada e boa persistência. Na verdade é um bom tinto, mas a meu ver faltou uma certa complexidade, típica dos bordeaux. Acredito tratar-se de uma safra já PRONTA, passando de pronta. Me preocupou até as duas garrafas que ainda restam na adega.

Ao menos fiquei feliz porque o vinho agradou aos meus companheiros de taça e rendeu boas conversas, mas a mim ficou um pouco a frustração por um bordeaux sem tanto brilho… Realmente, gosto cada um tem o seu. E no duelo Italia versus França, deste início de 2012, a Itália saiu bem na frente!

*não achei referência atual de preço, mas paguei R$ 115 há seis meses na www.vinistore.com.br

FRANÇA

Bordeaux. Os sempre clássicos Crus…

Eu juro que evitei escrever este post. Mas não deu. Não queria falar de Bordeaux tão cedo no blog, mas convenhamos que é bem difícil deixar passar esses grandes clássicos, e como esta degustação aconteceu em novembro não poderia deixar “virar o ano” sem falar dela. Essa degustação foi organizada pela Adega Tio Sam (Salvador/BA) para a promoção dos rótulos Grand Cru Classé que eles estão importando agora com exclusividade. A degustação foi conduzida por Rafael Puyau de maneira bem didática e contou com a presença de membros da ABS-BA e enófilos.

A classificação oficial dos vinhos de Bordeaux aconteceu em 1855, quando foram classficados 58 châteaus (vinicolas) em 05 crus: Premiers Cru, Deuxièmes Cru, Troisièmes Cru, Quatrièmes Cru e Cinquièmes Cru. Esta lista sofreu pouquissimas alterações de lá pra cá, e hoje conta com 61 châteaus.

Para esta degutação foram quatro rótulos, só faltou um Premier Gran Cru:

  • Deuxième Crus: Château Gruaud Larose 2005 | Saint – Julien (R$ 430,00)
  • Troisième Crus: Château La Lagune 2005 | Haut – Médoc (R$ 590,00)
  • Quatrièmes Crus: Château Prieuré – Lichine 2007 | Margaux (R$ 210,00)
  • Cinquième Crus: Château Lynch-Bages 2007 | Pauillac (R$ 520,00)

Impressionante o padrão dos vinhos. Sejam os aromas, o ataque em boca, a elegância. Todos sofremos para classificá-los em ordem de preferência. A degustação foi bem pensada: pequena variação nas safras (2 rótulos 2005 e 2 rotulos 2007), quatro AOCs distintas, as porcentagens dos cortes variavam pouco dentro do corte bordalês (Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Petit Verdot). Eu jurava ter adivinhado o vinho com maior participação da Merlot (minha uva preferida, que vai merecer um post só dela), mas errei feio. 😛

Uma ponto que levantei, e que acredito ser uma boa discussão sobre os vinhos de Bordeaux, foi a facilidade no degustar. Infinitamente “mais fáceis” que os Barolos e Brunellos italianos de safras próximas. Muito aromáticos, mesmo sem tanto tempo de taça (apenas um deles sofreu mais) nos lembrou o padrão “Novo Mundo”, que foi de certa forma imposto por Robert Parker. Seriam os classudos Bordeaux se rendendo a “parkerização” na enologia?

Engraçado que no ranking (a degustação foi às cegas) o vinho que teve a última colocação foi justamente o mais caro, foi o que precisou de mais tempo na taça e tinha os taninos menos domados. Certamente deve ser o mais longevo. Mas verdade seja dita, o nível dos vinhos é muito equiparado.

Fato é que degustar bons Bordeaux é ser transferido imediatamente à França. É sentir em cada gole o terroir totalmente distinto de qualquer outro lugar que produza vinhos e que utilizem as proporções do corte bordalês. Não tem jeito: reverência à França e sua história enológica sempre!