Montes Alpha M 2007

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Mais um vinho perdido entre as degustações que ainda não tinham sido registradas. Aos poucos vou achando o espaço pra me redimir…

Adoro o Montes Alpha e por isso mesmo tinha grande expectativa de experimentar o ícone da vinícola. Estando no Chile, especificamente na noite fria do Atacama, surgiu excelente oportunidade. O Montes M aparecia como clássico super premium chileno na lista dos vinhos especiais do hotel onde me hospedei, juntamente com o Almaviva e o Clos Apalta. Teria sido exagero?

O vinho: Montes Alpha M 2007

A começar pela safra de 2007, lendária chilena, aquela garrafa carregava ainda mais esse peso. No nariz estava bastante fechado inicialmente, evoluindo no decorrer da prova com frutas vermelhas bastante maduras, algum tostado e um toque herbáceo que não chegou a incomodar mas que pessoalmente não me agrada. Taninos vivos, robustos, coisa de vinhão! Acidez muito boa, encorpado, daqueles vinhos que exigem uma comida a altura. Pois bem, se tivesse que mudar algo nesta degustação teria sido não deixar este vinho sozinho. Ele implorava por comida e foi propositalmente degustado após o jantar para a maior expressão de um “vôo solo”, sob as risadas do dia de deserto e conversas meio descompensadas sobre vinho, chileno é claro!

Devo confessar que o vinho frustrou de certa forma, entendo que ainda não está pronto, guarda algumas arestas que não se espera de um label tão forte, a discrepância entre nariz e boca foi crucial. Não chega a ser deselegante de maneira alguma mas era um vinho do qual esperava mais. Se você tem um safra 2007 espere um pouco mais. Esqueça ele na adega um tempo. Porém também tenho noção de que minha ligeira frustração tem um fundo no excesso de expectativa. Assim como nas relações humanas quando maior envolvimento, mais expectativas, maior risco de frustração. Já quando não se espera nada qualquer migalha surpreende. Por isso é inevitável: dos grandes vinhos, assim como das grandes pessoas, é impossível não criar igualmente grandes expectativas.

* R$ 440, www.mistral.com.br (safra 2009, a safra 2007 não encontrei disponibilidade em nenhum site)

CHILE

Montes Alpha Cabernet Sauvignon 2008

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Escolher um Montes Alpha é saber o que esperar e não ter medo de errar. Vinhos bem elaborados e corretíssimos são as marca da vinícola, que tem um syrah entre os meus preferidos.

Este cabernet sauvignon, com 10% de merlot no corte, foi aclamado como dos melhores cabernet do “novo mundo” e foi escolhido como o “melhor bordeaux chileno” pela conceituada revista Decanter.

No nariz pimentão, cassis e um herbáceo discreto. Em boca elegante, taninos bem presentes porém muito aveludados, ótima persistência e acidez potente mostrando seu grande potencial de guarda. Foi harmonizado com as massas do Speciali, evidenciando ainda mais o vinho em si. Um vinho potente porém muito fácil de beber, muito bem feito, e que agradaria até mesmo aqueles menos fãs dos cabernet. Pra ter sempre um na adega!

* R$ 100 www.costibebidas.com.br

CHILE

Bordeaux: Chateau Haut-Bergey 2003

“Gosto, cada um tem o seu.”

Foi assim que iniciou a discussão em torno desse vinho. Degustado em trio perguntei, antes da minha impressão, o que achavam dele. A adoradora da França, foi extremamente parcial: “Adorei. Adoro os bordeaux!”. O outro meio sem saber como avaliar falou: “Gostei. Não gosto de vinho ~velho~ mas gostei desse”. Oi?

Nada melhor do que um bordeaux como segundo vinho do ano para duelar com o italiano da noite anterior. Mas… Perdeu feio! 😛

Eu tinha criado uma certa expectativa em torno deste vinho pois já havia lido avaliações muito positivas em outras safras. Corte bordalês com apenas cabernet sauvignon e merlot. O vinho tem uma cor granada, já demonstrando a evolução dele. Aromas um tanto fechados, cujo tempo de taça nem favoreceu tanto. Tem um aroma herbáceo bem característico, o que me desagrada um pouco. Já os taninos são bem macios, a acidez equilibrada e boa persistência. Na verdade é um bom tinto, mas a meu ver faltou uma certa complexidade, típica dos bordeaux. Acredito tratar-se de uma safra já PRONTA, passando de pronta. Me preocupou até as duas garrafas que ainda restam na adega.

Ao menos fiquei feliz porque o vinho agradou aos meus companheiros de taça e rendeu boas conversas, mas a mim ficou um pouco a frustração por um bordeaux sem tanto brilho… Realmente, gosto cada um tem o seu. E no duelo Italia versus França, deste início de 2012, a Itália saiu bem na frente!

*não achei referência atual de preço, mas paguei R$ 115 há seis meses na www.vinistore.com.br

FRANÇA

Um grande chileno: EPU 2008

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Foto de celular à noite é uma desgraça...

Eu adoro cozinhar. Na verdade adentrei ao mundo dos vinhos pela porta da  gastronomia. Por conta dos programas de Claude Troisgros e Atala, das aulas, dos livros e revistas de gastronomia. Mas tenho que confessar que tenho cozinhado quase nada! A preguiça me consome! O que é bem frustrante tendo em vista que cozinhar pra mim é um exercício de muito prazer. Mas outro dia discorro mais, muito mais, sobre este assunto que merece posts específicos, afinal comida e vinho é a mais completa combinação.

Tudo isso posto para dizer que a cozinha da minha casa agora fica na esquina da minha rua e atende pelo nome de Speciali! É uma pizzaria bem charmosa, com pizzas cheias de bossa e algumas entradinhas legais. O serviço e o ambiente são ótimos e a carta de vinhos do restaurante é muito boa, e feita corretamente, uma exceção ainda hoje!

Mas nesta noite de terça, a carta do Speciali foi deixada de lado e levamos o vinho! Compramos o EPU no lançamento da safra 2008 no www.wine.com.br. Trata-se do “segundo vinho” da vinícola boutique Almaviva, do enorme grupo Concha Y Toro. A expectativa era grande, afinal o Almaviva é um rótulo de imponência aos chilenos. No rótulo faz-se referencia ao corte bordalês com predominância da Cabernet, mas não informa quais outras cepas participariam. Eu acredito que tenha um pouco de carmenere, por fazer parte historicamente do corte bordalês embora não exista mais na França, só no Chile. Graduação alcoólica relativamente alta 14,5%, seria a presença de merlot?

Mas que grande Cabernet! Muito escuro (seria a Merlot?). Bastante aromático. Demos algum tempo de taça a ele mas nem era necessário tanto. Aromas típicos da cepa: pimenta do reino, pimentão. Muita fruta madura e também aromas terciários incluindo baunilha. O vinho em boca é um veludo (seria a Merlot novamente?), com o ataque típico da Cabernet. Discorremos sobre a diferença do “aveludado” em um cabernet e o “aveludado” de um Pinot Noir por exemplo, como o ataque e persistência posterior é diferente. É um vinho de bom corpo, que acompanhou bem a pizza de calabresa de javali, mas que com uma bela carne de churrasco seria perfeito! Taninos muito elegantes e acidez perfeita. Sem dúvida é um vinho equilibrado, harmônico.

Terminamos a garrafa do EPU com aquela sensação de querer mais que só os grandes vinhos proporcionam, e discutindo se seria um vinho que melhoraria com o tempo de guarda, daqui pra frente. Pra mim trata-se de um vinho PRONTO, que tem longevidade claro, mas não acredito que ganhará com o tempo na garrafa. Bem, acho que essa foi a única discordância da noite… 😉

Para o EPU 4 taças seria pouco. Mas 5 taças o colocaria como vinho perfeito, o que para os tintos especialmente, é bem complexo. Portanto além de didádico, as 4 taças e meia acabam por o defininir muito bem! A meia taça faltante é o misterio do que “ainda falta” neste grande rótulo!

*R$ 190 (www.wine.com.br)

CHILE

Rosé Luiz Argenta 2011

Sendo este o vinho da harmonização com sopinha do ultimo post, aproveitei enquanto cozinhava para degustar somente o vinho e perceber suas nuances.

Comprei esta garrafa na propria vinicola, na cidade de Flores da Cunha/RS. A visita a vinicola já valeria a pena só pela construção em si. Engenheira mode on. Encrustrada em rocha, a cave é belíssima realmente. Vinhos bem feitos, e até algumas surpresas: um “amarone” brasileiro estaria sendo “concebido” por lá? Vamos aguardar… Inclusive, na avaliação nacional dos vinhos deste ano (safra 2011) o Merlot Luiz Argenta ficou entre os 16 melhores vinhos.

Esse é o rosé “amostrado”, corte de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot e Syrah. Tenho que confessar que a garrafa me chamou muito a atenção. Afinal o design também conta quando lembramos das garrafas padronizadas que dominam o mercado. Mostra uma preocupação extra. 🙂 O enologo da vinicola, Edegar Scortegagna, quando foi falar da vinificação frisou também o tempo de permanência das cascas para a obtenção da cor pretendida. Realmente a cor do vinho é rosada e não salmão como muitos rosés.

Mas vamos ao que realmente interessa. O vinho é bom? Muito aromático. Aroma de morango e também frutas cítricas, um pouco de flores também. Acidez maravilhosa, denunciando a pouca idade do vinho, mas especialmente mostrando a que veio: um rosé jovem, com frescor, sem firulas e que acompanharia muito bem os famosos frutos do mar mas também carnes menos condimentadas, grelhadas.

Vou falar a verdade, pra mim esse rosé tem algo bem especial: mostra que aqui no Brasil temos sim rosés de VERDADE. Sem essa necessidade de produzir vinhos roses doces e “maquiados” de cor-de-rosa sob o falso pretexto de que são vinhos “menos sérios”. E isso tem a ver com a qualificação do consumidor, além do visivel desenvolvimento das vinícolas da Serra Gaucha. Acredito que estamos num bom caminho!

* R$ 27 (www.luizargenta.com.br)

BRASIL

Filmes!!

Bons filmes independem da temática, certo? Pois é, no caso dos vinhos não é diferente. Mesmo não sendo dramas de Almodovar, que eu amo, estes três filmes que indico são realmente muito bons!

Não seria exagero nenhum dizer que Sideways levou às adegas muitos dos que o assistiram. E não só isso: Sideways foi responsável por uma mudança drástica
no distrito de San Luis Obispo na Califórnia/EUA. Onde antes do filme não havia nada, de repente triplicou-se a produção de Pinot Noir e tornou-se uma das mais importantes áreas de enoturismo dos EUA. Não necessariamente pelos “bons vinhos” :P.

Pra mim três filmes cujo tema é o vinho, se destacam:

O Julgamento de Paris (2009): baseado na historia real do grande evento, em 1976, que mudou a forma como se via o vinho, e que abriu as portas do “Novo Mundo” para um mercado na época ainda restrito aos produtores do “Velho Mundo”. Impressionante perceber como uma degustação às cegas derrubou Chateaus franceses e projetou vinícolas californianas ao padrão dos grandes produtores. Foi a partir do julgamento de paris que os antigos produtores perceberam que havia sim concorrentes a altura, terroirs alternativos. Foi o resultado e a repercussão deste evento que tirou os produtores clássicos da inércia cômoda de que grandes vinhos só se produziam no eixo França-Itália.

Mondovino (2005): documentário espetacular sobre o negócio do vinho. Acredito ser exatamente o contraponto ao ocorrido no Julgamento de Paris. Interessante perceber o quanto se perdeu do “romantismo” na produção de vinhos para atender as “demandas do mercado”. O filme mostra a todo momento, a diferença entre os grandes produtores versus os pequenos, que ainda fazem deste oficio algo de esmero, muita paixão e paciência. Se discorre sobre o quanto da pressa em colocar as garrafas à venda mudou o mercado, o quanto a opinião de críticos (especialmente Robert Parker) determinou o padrão de “vinho bom” e tirou um tanto da diversidade de algumas vinícolas. Tais vinícolas transformaram seus rótulos em uma padronagem: para receber boas notas de tais críticos.

Sideways (2004): esse filme, de ficção, todos deveriam assistir, mesmo sem gostar muito da bebida. É um drama que se passa entre vinhedos e taças de vinhos que deixam o expectador numa vontade enorme de também degustar. O filme, além do crescimento que trouxe à região onde foi filmado, incrementou muito o consumo de Pinot Noir nos EUA, mas como nem tudo são flores, também relegou a queridinha Merlot a um status injusto, o que fez a venda de vinhos com esta cepa despencassem nos EUA. Mas a chave de ouro, sutil na verdade, é justamente o paradoxo do protagonista (que é a contradição em pessoa) que, ao mesmo tempo que diz odiar Merlot, tem como grande jóia da sua adega pessoal um Chateau Cheval, cujo corte bordalês inclui a Merlot. 😀

Nada como abrir uma garrafa de vinhos pra assistir estes filmes…