A Itália e um Brunello di Montalcino

Quanto mais rótulos a gente experimenta mais rótulos a gente quer experimentar. Cada garrafa é uma surpresa. E confesso que essa experimentação faz meus olhos brilharem. Uma nova casta, um novo produtor, um novo terroir, até uma safra diferenciada… me motivam absurdamente! Dificilmente compro mais de duas garrafas de um mesmo vinho…

Mas há dias em que a gente quer aquilo que costumo chamar de “vinho conforto”. Aquele vinho que a gente sabe que gosta, sabe o que esperar, sabe o que vai ter! Os vinhos italianos funcionam assim pra mim. Mesmo quando são de produtores que nunca provei sei o que quero quando escolho um Amarone, um Chianti, um Barolo, um Brunello.

O “estilo italiano” mais escondido me encanta, normalmente vinhos fechados aromaticamente mas que na boca surpreendem. Utilizam as uvas autóctones do país que fazem a experimentação ter sempre muita identidade: sangiovesenebbiolo, corvina, molinara… Tem a cara da Itália!! Por isso mesmo os chamados “super toscanos” nunca me despertaram tanto interesse. Acho fantástico o movimento em si, de contraponto à uma legislação fechada e caduca, propondo o novo. Dissidências normalmente evoluem o pensamento no mais diversos âmbitos e foi o que aconteceu na Itália com os super toscanos. Mas no caso desde movimento, como o foco foi muito na utilização das castas internacionais (cabernet sauvignon, especialmente), não me conquistou pelo produto, mas sim pela ideia progressista. Acredito que o melhor da Itália ainda está nas suas uvas próprias, que considero parte da expressão de terroir do país! 😉

O vinho: Brunello di Montalcino – Belpoggio 2004

Na taça demonstra um bastante visível halo de evolução, com uma cor já um tanto “atijolada”. Fechado, muito fechado no nariz. É preciso muito esforço e espera para sentir seus aromas. Na boca taninos elegantes, domados na medida, ótima persistência, acidez num bom equilíbrio com a complexidade que se espera desses vinhos: harmonia. É daqueles vinhos que nos entristece ver o fim da garrafa porque sem dúvida, degustá-los é ter a sensação de estar lhes desvendando…

* R$ 210, na www.superadegaexpress.com.br

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E no domingo, um Amarone!

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Eu tenho uma relação de amor e ódio por São Paulo. Na mesma proporção. Nunca morei aqui, mas São Paulo sempre me trouxe aquela sensação de que é bom, mas só de vez em quando… Mas olha, esse domingo tive que abrir mão. Nunca fui tão bem “ciceroneada” como neste domingo.

É até difícil pra mim falar do vinho de hoje (na verdade houve um segundo vinho, que fica pro próximo post) porque quem me conhece sabe: é o meu vinho, meu estilo de vinho. Eu só ouvi: “Tenho um presente pra você. Acho que vai gostar”. De repente me vejo numa livraria, repleta de livros de vinhos e gastronomia, e com um Amarone de presente. Melhor impossível. Coisa de gente que me conhece…

O vinho: Amarone della Valpolicella Clássico Campo Casalin 2006

Bebemos a garrafa sem qualquer acompanhamento, só longas conversas sobre a vida, e sobre vinhos. Embora em vários momentos pensei numa carne suculenta, com muito molho, cozida lentamente, que acompanharia maravilhosamente. Pena que o autor do presente é vegetariano, porque esse vinho pede uma comida encorpada. 😛

O vinho é muito bom. 15,5% de gradação alcoólica, mais alta que os vinhos “normais”, tendo em vista que o Amarone é um vinho elaborados com uvas desidratadas após a colheita, concentrando o açúcar desta forma, e só então vinificadas. São elaborados com as castas italianas corvina, molinara e rodinella. O vinho é extremamente estruturado, de bom corpo, cor granada, taninos mais que presentes e acidez equilibrada. Esse 2006 ainda ficaria uns quatro anos na adega, fácil. É um vinho complexo. Aromas de frutas maduras, presença de baunilha e uma persistência instigante. Um presente que recebi e que só pude agradecer com a felicidade de quem degusta aquilo que melhor lhe representa.

O Amarone é meu vinho. Descobri através um amigo sommelier, que numa bateria de prova me disse com toda a certeza do mundo: “Gabi, esse é o teu vinho. Prove.” Certo ele. Hoje quem me conhece sabe. Quer me deixar perdida numa degustação? Me dê um Amarone. É um vinho que me perturba num grau altíssimo. Não consigo ser imparcial perante ele. É um caso de paixão a primeira vista, e que jamais será superado!

* embora tenha sido presente achei por R$ 227 na www.vinhocracia.com.br

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Campofiorin Ripasso 2007 (Masi)

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A quarta feira chega completamente despretensiosa, meio de semana, como quem não quer nada. Na verdade ninguém espera nada de uma quarta feira. Mas é justamente quando esperamos pouco, ou quase nada, que nos surpreendemos. Caso do vinho desta quarta.

Fim de noite. Saída do trabalho às 20h.
“Que tal um vinho?”
“Só se for tinto.”

Eu estava completamente agoniada para o debut do primeiro tinto do blog. Preciso confessar que já tenho algumas avaliações na gaveta, mas num blog a gente espera algo além do “programadamente burocrático”. 😀

Eu sabia que o primeiro tinto seria italiano, tinha que ser. O despertar pelos vinhos tinha que iniciar também os tintos do blog.

Restrição: carta de vinhos do restaurante. Saída: fomos no menos obvio da carta. Um IGT, nada de DOCs ou DOCGs. Eu queria um Amarone mas como não deu (pretensão mode on)… Este é um vinho produzido pelo método “ripasso” de vinificação, onde o vinho comum é colocado nas cubas onde foram produzidos os Amarones e em contato com a borra sofrem uma segunda fermentação, a idéia é agregar algo da borra do grande Amarone ao vinho “normal”.

Vou dizer: nada a ver com o Amarone, apesar de receber as mesmas cepas (corvina, rodinella e molinara). Tem estágio em carvalho, o que lhe da alguma complexidade, mas na verdade degustamos um vinho bem jovem, de corpo médio. Acidez bastante acentuada para um vinho completando seu quinto aniversário, taninos equilibrados.

Eu fiquei receosa da harmonização com pizza (parma com mascarpone e quatro queijos) temendo o vinho se sobressair, mas vi um tinto extremamente vigoroso e aromático (dê tempo na taça a ele, ele é fechado a princípio) ser degustado e uma boa harmonização com a pizza, que seria pouco para um Amarone de verdade!

Resultado da noite: sorrisos, um brinde ao blog e mais um tinto para a lista das boas surpresas. Ok, ok. Talvez com contribuição da pizza, da música, do lugar… Enfim, mas vinho não é exatamente isso e tudo o mais? 😉

Salute!

*R$ 85, mistral.com.br

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