Um bom blend peruano. E um até logo.

A gente passa aquele imenso tempo imerso em trevas pra eventualmente perceber que na verdade tratava-se apenas de… férias! Ou seria somente um período sabático?

Verdade seja dita que depois do fatídico fim das aulas de José Santanita, meu grande mestre, e toda sua retórica no sentido de justificar o vinho e as escolhas da vida, o mundo girou. E tudo ganhou nova perspectiva.

Quem diria que hoje, morando no interior de Angola, depois de ter quase que suprimido o vinho da taça, estaria eu a experimentar um blend de cabernet sauvignon com petit verdot peruano (!!!), comprado há um bom tempo atrás e que só agora fez sentido ser aberto.

Aí me perguntam: “Gabi, por que ritualizar tanto assim?”. Sei lá…. Talvez a vida seja mesmo isso, viver de rituais, perceber o abrir e o terminar dos ciclos, e ter certeza de que paixão nunca é demais. Paixão pela rotina, paixão pelo novo, por um rótulo que traz lembranças, e por outro descoberto completamente no escuro.

O vinho de hoje teve um motivo muito especial. Depois de tanto tempo sem avaliar qualquer vinho, aceitei o desafio atrasado de alguém que em tom de despedida escolheu a minha bebida pra celebrar: “Vamos de vinho hoje!”.

O vinho: Intipalka Valle del Sol Reserva 2009

Corretíssimo, foi aberto praticamente fervendo na temperatura ambiente quase que recifense. Coitado do vinho comportou-se como um lord parecendo prever a chuva torrencial seguida daquela brisa leve e fria que o acompanharia em breve. No nariz frutas vermelhas, já bastante maduras, com pouca presença de madeira através dos aromas de caramelo. Boa acidez e taninos macios, fáceis, fáceis, e adequados ao que pedia o dia: corpo ligeiro, pouca complexidade e álcool equilibrado. Safra já em clara decadência porém boa opção de rótulo, apesar da pouca fama do terroir peruano, dominado pela produção dos Piscos.

Harmonizações a parte, e com certeza toda uma melancolia inerente ao momento, o vinho acompanhou bem o prato “de sempre”, no lugar “de sempre”. Fez frente às sempre boas risadas, e até às lagrimas de avaliações tão densas. Estar à um Atlântico de distância da sua “zona de conforto” talvez extrapole o significado de tudo, mas por que não haveria de ser?

O “até logo” é sempre a expectativa de ter novamente perto aqueles que a gente define em uma palavra: conforto. Pois é assim: todo período sabático, pra ser sabático, precisa de um fim.

Um brinde aos grandes vinhos. E aos melhores amigos. E à sua raridade. Seja à um oceano ou à um metro de distância.

* U$ 25 no freeshop de Lima

PERU

Shiraz autraliano e comida peruana

Esse foi mais um rótulo degustado em minha estada no Peru. Harmonizado com muitas conversas, risadas e a ótima comida do restaurante Central,de Lima.

O vinho: The Stump Jump 2008

Nosso TOP cicerone local reservou-nos uma mesa fantástica, praticamente dentro da cozinha, de onde acompanhávamos o desenrolar frenético de um grande restaurante peruano. Comida contemporânea mas com FORTE presença da tradição local. Fiz questão de pedir uma pastinha de aji pra acompanhar. Bela e completa carta de vinhos e até uma carta de piscos eles tem. Pães, manteigas, chocolates, etc, tudo produzido no restaurante onde à mesa nos apresentam uma “degustação de sais”, 4 tipos. Uma maravilha! Serviço impecável, apresentação dos pratos primorosa e uma “saideira” com pisco sour, chicha morada e piña colada em forma de sobremesa.

O vinho é bastante aromático em especiarias, como manda a syrah, e fácil, macio. A grenache entra com força no corte (50%), como os típicos do Rhone, que tem também mourvédre. Sem grande complexidade. Harmonizou também fácil com o prato de carneiro, mas verdade seja dita, o carneiro preparado em cocção lenta quase desmanchando na boca sobressaiu, e muito, ao vinho. Mas quem se importa? 😀

Falei pouco do vinho né? É porque naquele dia ele foi mesmo figurante. Diante de uma despedida de Lima, num restaurante como o Central, não havia mesmo como ele ser o protagonista!

* 120 soles (aprox. R$ 78) no Central, Lima

AUSTRÁLIA

Robert Mondavi Private Selection 2006

Esse foi um dos vinhos degustados no Peru numa (des)harmonização bem louca. Eu naquela sede de experimentar acabei nao me prendendo tanto a uma harmonização perfeita. Rolou de tudo com esse vinho, mas o prato principal foi cuy com papas, que ele acompanhou adequadamente.

Um Robert Mondavi Private Selection 2006, elaborado com predominância da cabernet sauvignon (há também, em pequeno percentual, syrah, merlot e outras castas para equilibrar o blend). Em sua perfeita forma! Se tiver um 2006 na adega deguste logo! Sob pena de experimentar depois um vinho morto.

Começamos com o vinho, para ao menos a avaliação dele ser livre de uma harmonização duvidosa. O vinho é bem redondo, bom corpo, taninos macios e acidez baixa, um tanto perigosa, (minha eterna obsessão pela acidez), mas com toda a robustez que se espera de cabernet. Uma boa persistência olfativa e também na boca.

Trata-se de um vinho correto, mas bem característico da “parkerizaçao“, com muita extraçao de fruta madura. Um pouco mais de complexidade lhe cairia muito bem!

* R$ 85, www.vinhocracia.com.br (safra 2007)

EUA

 

No Peru: comida, pisco e um pouco de vinho

Um carnaval no Peru muito intenso. Cheio de experiências gastronômicas, vínicas (etílicas) e especialmente pessoais, que é difícil resumir. Poucos dias, mas que pela intensidade pareceram semanas. Difícil voltar ao cotidiano.

Duas coisas me impressionaram bastante no Peru, além dos objetivos óbvios da viagem: a comida, que já sabia da sua riqueza, e o serviço. Os peruanos são especialistas em receber bem. Sejam os serviços turísticos em si, seja em restaurantes, lojas, etc. Voltar pra lá é mais do que uma vontade, é a certeza de estar em ótimo lugar. Todos os dias comi e bebi o que se come e o que se bebe por lá. Claro que os vinhos não ficaram de fora mas os pontos altos da viagem foram:

  • degustação das ótimas cervejas cusqueñas com carpaccio de alpaca
  • pisco sour como drink de boas vindas em todos os lugares
  • ceviches, muitos ceviches, em várias versões.
  • choclos em todas suas versões possíveis: desde o milho de rua até o milho estourado por dentro, a pipoca ao avesso, e a chicha morada, mais ou menos um suco de milho roxo.
  • cuy com purê de papas locais
  • as mais variadas espécies de papas, em forma de chips, nos couverts dos restaurantes
  • todos os tipos de aji, pra esquentar até a alma.

Trouxe na mala uma garrafa de pisco, a famosa bebida peruana, e dois não tão famosos vinhos peruanos. Serão boas surpresas? Veremos!

Sendo este post um post meio off, ressalto que ele é mesmo pra matar um pouco a saudade. Saudade de um lugar tão cheio de cultura própria (e orgulho dela!), de nuances gastronômicas e especialmente cheio de cuidado e ritual com as pessoas e com aquilo que se põe à mesa. Como a companhia era das melhores não havia como esta viagem ser mais perfeita!

Hasta luego Peru!