Chacra Cincuenta y Cinco 2011

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Mais um clássico retirado do limbo. E esse vinho tem história! Me foi super indicado por alguém cuja opinião sobre vinhos pesa, e muito! Bem “vivido” em grandes experiências vínicas já degustou do que há de melhor, com sensibilidade suficiente para conversar horas e horas sobre os mistérios de Baco… Pois bem, recebi a encomenda de encontrar esse pinot noir argentino na minha viagem à Mendoza: “você vai ver o que estou falando”. Sentenciou.

Eu jamais negaria um desafio como esse ainda mais de uma bodega de nome Chacra. Sua alcunha foi suficientemente curiosa para alguém que já tentou se meter a iogue. Qual dos chacras seria a melhor representação? 😛

O vinho: Chacra Cincuenta y Cinco 2011

A Bodega Chacra está na patagônia argentina e produz 4 vinhos, sendo três de pinot noir e um merlot. Utiliza-se do peculiar terroir da patagônia para imprimir o máximo de expressão à rebelde e temperamental pinot. A mecanização é quase inexistente no processo produtivo, não há esmagamento das uvas se aproximando bastante de uma maceração carbônica. Não há bombeamento do “chapéu” durante a fermentação. Não há filtração. Barris 100% da borgonha, onde o vinho espontaneamente inicia a malolática, reforçando o capricho com a pinot.

É quase uma poesia descrever tudo isso pra quem já visitou uma “vinícola normal”. É muito cuidado e paixão pelo vinho que obviamente lhes rende a classificação de biodinâmicos.

O Chacra 55 é produzido a partir de vinhedo único de vinhas velhas plantadas em 1955, daí a origem do label. O Chacra 32, que é o TOP da bodega e que não encontrei nesta viagem, é produzido com vinhas de 1932. Existem ainda o Barda, que também é pinot noir porém mesclas de vinhedos jovens não únicos, e o Mainque, o merlot da vinícola que me deixou curiosa mas também não o encontrei.

Pois bem, eis que o Chacra 55 é o melhor pinot que já degustei. A delicadeza dos vinhos da casta e a sutileza organoléptica na degustação dessa clássica cepa borgonhesa é de rever rituais. Eu que tenho minhas restrições pessoais com a pinot, em parte por ainda nao ter degustado nenhum grande borgonha, infelizmente nunca fui muito feliz com ela, afinal as chances de insucesso são infinitamente maiores. Tenho que admitir que a “queridinha” tem seu espaço, sendo o Chacra uma excelente opção aos por vezes inace$$íveis borgonhas de qualidade.

Em taça linda cor típica da cepa, aromas delicados de frutas vermelhas um tanto maduras, um tanto ácidas. O estágio de 14 meses em carvalho em nada se sobrepõe à fruta. Corpo médio, persistência e acidez marcante, taninos macios, finos. Retrogosto confirmando o nariz, boa persistência. É importante controlar a temperatura desde vinho para bem desfrutá-lo, assim como uma boa taça. Jamais se pode esquecer que é um pinot e sendo o típico temperamental há de se cuidar de tudo e mais um pouco…

* R$ 360, www.ravin.com.br

ARGENTINA

Pinot noir Californiano

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Mais um pinot noir aparecendo por aqui. Agora um californiano de Napa. Isso pra mostrar minha atual insistência com a casta que um amigo ao defini-la chamou de “vinho tinto de mulherzinha”. Minimizando o caráter talvez misógino do comentário esta é a opinião meio que geral. Vinhos fáceis, elegantes, sem grande corpo, e que agradam à maioria. Mas pra mim está justamente aí o perigo.

O vinho: Beringer Pinot Noir 2007

Assim como o pinot da patagônia esse vinho está longe da expressão da casta na França. Claro que não dá pra colocar tanta fé num pinot de Napa, mas vale pela diversidade. Fala-se muito da qualidade dos rótulos da Nova Zelândia, que ainda não tive oportunidade de experimentar.

Esse é um vinho simples, de acidez um tanto desequilibrada, mais elegante do que o da patagônia, mas ainda assim nao configura uma boa compra para a casta. Continuo preferindo os pinot da borgonha, e não me refiro aos TOPs.

*U$ 25, www.beringer.com

FRANÇA

Pinot da Borgonha

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Em contraponto ao pinot da patagônia de dias atrás veio este de borgonha. Claro que de um rótulo de cerca de R$ 140 num restaurante em São Paulo nao dá pra esperar um romanée-conti. Mas diante do que se espera de vinhos de pinot noir acredito que até os borgonhas mais simples acabam atendendo a contento.

O vinho: Pinot noir Bourgogne Roux Pere & Fils 2010

Este é translúcido e brilhante como é de se esperar. Cor muito aberta. No nariz bastante fruta vermelha ácida, morango e cereja. Na boca taninos domados, boa acidez, frescor e aquela elegância em corpo típica dos pinot.

Mais um ótimo rótulo pra acompanhar uma bela pizza. Foi nossa escolha novamente.

* R$ 88, www.vinhoszahil.com.br

FRANÇA

Pinot noir da Patagônia

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Por mais que a pinot noir nao seja uma queridinha minha, verdade seja dita, ela normalmente acaba sendo uma escolha mais versátil entre os tintos.

O vinho: Reserva Del Fin Del Mundo Pinot Noir 2009

A Patagônia é uma região que tem se destacado pela produção de bons pinot. O clima mais frio acolheu a cepa de complexo manejo e levou a tão isolada região argentina a entrar nas referências da casta.

Este exemplar me chocou pelo álcool. No nariz e em boca. Ao verificar o rotulo entendi, mas me espantei com os 14 graus. Aromas de frutas vermelhas maduras, faltando um pouco de frescor. Em boca taninos domados, boa persistência mas o desequilíbrio do álcool sempre a tona. É incrível como numa casta tão delicada esse álcool a mais sempre se mostra, nao tem jeito. Teria a safra de 2009 sofrido muito com o calor? Ou é realmente característica da região? Vou tentar degustar novas safras.

É um vinho razoável pra harmonizar com comida sem grande complexidade e também quando trata-se de escolher vinho para um grupo heterogêneo, onde um exemplar de pinot parece agradar a “gregos e troianos”. Embora seja importante ressaltar que este ainda está bem distante da tipicidade da cepa em sua terra natal, a borgonha.

*R$ 60 www.wine.com.br

ARGENTINA

Casa Valduga Premium Brut 2007

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Comprei esse vinho por um único motivo: era em meia garrafa! Brincadeira… Na verdade essa linha Premium da Valduga tem rótulos bem interessantes (inclusive um gewustraminer muito bem comentado e que nunca consegui encontrar) a preços convidativos.

Me chamou atenção um espumante meia garrafa, método tradicional e safrado!! No mínimo interessante. Ainda é bem complicado encontrar bons vinhos em versão 375ml e eles são uma mão na roda, seja quando a refeição cabe somente uma taça pra dois, ou quando pretende-se degustar mais rótulos.

Este espumante elaborado com chardonnay e pinot noir tem boa acidez, aromas cítricos com algum tostado, boa perlage porém não tão duradoura. Com bom corpo, é uma boa opção de espumante nacional para harmonizações que exige este tipo de vinho. Mas preciso confessar que pra mim faltou um pouco mais de acidez. Já estaria “velha” essa safra? Se em geral eu acabo sempre no foco de acidez, com espumantes então nem se fala.

Mas reitero: ótima opção em espumantes de meia garrafa. 😉

* R$ 50 (750ml) www.vinhosnet.com.br

BRASIL

Fairview Pinotage 2009

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Eu já tava agoniada pra postar esse vinho. Primeiro para estrear os sul-africanos no blog, segundo pra falar da pinotage! 😉

Esse vinho foi uma boa escolha entre as (poucas!) opções da carta de vinhos do Forneria (São Paulo). Em um grupo de cinco pessoas agradou a todos, iniciados e iniciantes, embora todos tenham feito uma cara feia quando me viram escolhendo um vinho da África do Sul. Interessante como o consumidor ocasional tem sempre os mesmos focos: Chile/Argentina e França/Itália/Portugal. Mas enfim… vamos ao vinho!

A pinotage é a queridinha sul-africana, já que foi lá que encontrou seu perfeito terroir, fruto do cruzamento entre a pinot noir e a cinsault (ou hermitage). Eu tenho um certo fascínio pela pinotage, e meus companheiros de mesa não sabem, mas o pinot noir da borgonha degustado depois deste vinho foi proposital. Didaticamente falando. 🙂 A pinot noir é uma uva adorada por todos os cantos do mundo, mereceu até menções apaixonadas no filme Sideways, mas para meu gosto pessoal é uma uva que falta um “quê” a mais. Me sentia até mal por não ter essa quase adoração que tantos no mundo do vinho sentem pela pinot, mas de fato a delicadeza, elegância e maciez da pinot não foram suficientes para arrebatar meu gosto pessoal. Entendam que me refiro a gosto pessoal, que não interfere na avaliação dos rótulos de qualquer que seja a casta, afinal cada uma tem suas peculiaridades. Tudo isto para dizer que a pinotage traz o algo mais que me falta na pinot. Para aqueles que como eu (não me crucifiquem por favor!!) sentem falta de um pouco mais de ataque e estrutura nos pinots, a pinotage pode ser uma grata surpresa.

O vinho: Fairview Pinotage 2009

Beberíamos este vinho a noite inteira. Muitíssimo aromático, aromas de frutas vermelhas e pretas, um tanto maduras. Ele passa por um estágio de menos de um ano em carvalho, que lhe confere uma maior complexidade aromática: fruta e madeira. Na boca é muito macio, mas com taninos bem presentes e agradáveis. Acidez na medida, álcool que não incomoda (14 graus), ótima persistência. Acredito que esta safra está no auge, pra beber este ano. Neste dia praticamente não houve harmonização, beliscamos alguns antipasti mas o foco da noite foi mesmo a conversa. Acompanhada de um ótimo vinho, sem dúvida!

* R$ 72 www.vinhocracia.com.br

ÁFRICA DO SUL

Filmes!!

Bons filmes independem da temática, certo? Pois é, no caso dos vinhos não é diferente. Mesmo não sendo dramas de Almodovar, que eu amo, estes três filmes que indico são realmente muito bons!

Não seria exagero nenhum dizer que Sideways levou às adegas muitos dos que o assistiram. E não só isso: Sideways foi responsável por uma mudança drástica
no distrito de San Luis Obispo na Califórnia/EUA. Onde antes do filme não havia nada, de repente triplicou-se a produção de Pinot Noir e tornou-se uma das mais importantes áreas de enoturismo dos EUA. Não necessariamente pelos “bons vinhos” :P.

Pra mim três filmes cujo tema é o vinho, se destacam:

O Julgamento de Paris (2009): baseado na historia real do grande evento, em 1976, que mudou a forma como se via o vinho, e que abriu as portas do “Novo Mundo” para um mercado na época ainda restrito aos produtores do “Velho Mundo”. Impressionante perceber como uma degustação às cegas derrubou Chateaus franceses e projetou vinícolas californianas ao padrão dos grandes produtores. Foi a partir do julgamento de paris que os antigos produtores perceberam que havia sim concorrentes a altura, terroirs alternativos. Foi o resultado e a repercussão deste evento que tirou os produtores clássicos da inércia cômoda de que grandes vinhos só se produziam no eixo França-Itália.

Mondovino (2005): documentário espetacular sobre o negócio do vinho. Acredito ser exatamente o contraponto ao ocorrido no Julgamento de Paris. Interessante perceber o quanto se perdeu do “romantismo” na produção de vinhos para atender as “demandas do mercado”. O filme mostra a todo momento, a diferença entre os grandes produtores versus os pequenos, que ainda fazem deste oficio algo de esmero, muita paixão e paciência. Se discorre sobre o quanto da pressa em colocar as garrafas à venda mudou o mercado, o quanto a opinião de críticos (especialmente Robert Parker) determinou o padrão de “vinho bom” e tirou um tanto da diversidade de algumas vinícolas. Tais vinícolas transformaram seus rótulos em uma padronagem: para receber boas notas de tais críticos.

Sideways (2004): esse filme, de ficção, todos deveriam assistir, mesmo sem gostar muito da bebida. É um drama que se passa entre vinhedos e taças de vinhos que deixam o expectador numa vontade enorme de também degustar. O filme, além do crescimento que trouxe à região onde foi filmado, incrementou muito o consumo de Pinot Noir nos EUA, mas como nem tudo são flores, também relegou a queridinha Merlot a um status injusto, o que fez a venda de vinhos com esta cepa despencassem nos EUA. Mas a chave de ouro, sutil na verdade, é justamente o paradoxo do protagonista (que é a contradição em pessoa) que, ao mesmo tempo que diz odiar Merlot, tem como grande jóia da sua adega pessoal um Chateau Cheval, cujo corte bordalês inclui a Merlot. 😀

Nada como abrir uma garrafa de vinhos pra assistir estes filmes…