Um Porto de 1939: degustação sem precedentes

O vinho: Porto Villar d’Allen – Companhia Vinícola do Norte de Portugal 1939

A ideia era preparar um prato, e consequentemente um boa harmonização, com trufas brancas que esperavam ansiosamente a hora de serem degustadas. Mil e uma opções de vinho, mas quase nenhum “velho” o suficiente para acompanhar os fungos tão delicados. Barolo de 2005, Brunello de 2004… nenhum desses me pareceu suficiente. Recorremos à José Santanita que nos indicou algumas possibilidades até diferentes, mas quando, já fora do contexto, ele viu a foto desse Porto, velho muito velho, guardado por gerações como uma espécie de bibelô foi categórico: bebam este!Pesquisando sobre a vinícola na internet, que foi fundada em 1706, vi que voltaram a ativa no mercado com os porto Tawny.

Como esse vinho veio parar aqui é uma história longa e que mereceria um outro post. Fato é que, com o rótulo bastante deteriorado, o líquido com uma pequena redução (demonstrando ter havido vazamento) e os 73 anos da colheita (!!!) nos deixaram bem ressabiados. Mas definitivamente era a hora de abri-lo e saber se ainda havia vinho naquela garrafa!

Ao abrir a cápsula, a rolha estava aprofundada e o saca-rolha não alcançava. Ao tocar a rolha ela simplesmente escorregou pra dentro da garrafa. Um sinal de que a coisas não estavam tão bem? Colocamos o vinho no decanter (que finalmente trabalhou de verdade!) e o vinho era marrom e repleto de depósitos. Após uma espera não muito longa servimos na taça e o halo aquoso de evolução se vê na taça em pé! A cor estranha só aumentava a ansiedade, mas no nariz ele tinha cheiro de… vinho!!! Cheiramos bastante, e reticentes, e talvez medrosos de na hora da prova deglutir apenas vinagre. Finalmente resolvemos experimentar e após o primeiro gole, num misto de confusão, e ao mesmo tempo confluência, de sentidos e emoção, haviam dois sorrisos que de tão abertos pareciam não entender o que se passava. Tinham tido sua maior experiência viníca!!

Indescritível.

Emocionante.

Fantástico.

A experiência com um vinho deste (VIVO!!!) é algo completamente diferente de tudo que se pode imaginar ou esperar quando se abre uma garrafa de vinho. Evolução de cor, aspecto em taça, halo de evolução nítido, muito nítido. Aromas complexos empireumáticos mas também frutado, numa proporção impossível de mensurar! Em boca uma maciez inimaginável, bastante chocolate no retrogosto junto com laranja e mel. Uma sensação impressionante. Viver a evolução que este vinho passou nesses 73 anos é perceber do que essa bebida é capaz!

A trufa que seria a protagonista desta noite acabou se comportando como mera coadjuvante. E aceitou de bom grado o papel, afinal um Porto como este será difícil, nesta vida, degustarmos novamente!

* Sem preço. Definititivamente sem preço.

PORTUGAL

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Vinho e Doces

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Sempre achei estranho beber vinho junto com a sobremesa. Claro que quanto mais você bebe vinhos mais experimentação vai se permitindo, mesmo aquelas que parecem ainda estranhas. Entendam-me, sei que a harmonização funciona, mas nunca senti necessidade de um vinho junto com a parte doce, o fim da refeição. É como se deixasse de realmente desfrutar da sobremesa em si e até desmerecendo o vinho. Mas enfim, tenho avançado um pouco mais nesta celeuma e têm sido boas as experiências.

Definitivamente a harmonização com doces é um grande desafio pra mim.

Dia desses fui de vinho do Porto com chocolate amargo, combinação clássica e simples. Embora pra mim seja pouco pragmático, afinal em restaurante as sobremesas são mais elaboradas e o chocolate ainda é a meu gosto o melhor acompanhante do café (cafeína addicted).

Já um bom sauvignon blanc (consegui tirar a casta do meu “limbo” com esta combinação) junto com salada de frutas (e frutas ácidas individualmente) não tem melhor! Num dia quente, na piscina, na praia, em casa, talvez num dia de comida mais leve. A acidez do vinho junto com a acidez das frutas só faz elevar o vinho e melhorar bastante uma simples salada de frutas!

Estou buscando agora uma boa harmonização de doces com espumante, mas o brut (minha idéia fixa de desafio) tem me frustrado. Acredito que o caminho seja ficar mesmo com os bons moscatéis.

Harmonizações muito restritas me frustram bastante, e confesso que na harmonização com doces minha grande questão tem sido buscar combinações mais despretensiosas, leves. Os vinhos ditos “de sobremesa” (Porto, Tokaji, Sauterne) tenho preferido na harmonização por contraposição, acho mais adequado ao “peso” dos rótulos.