Vira-lata até quando?

Há algum tempo fui convidada para uma ação do Ibravin que acontece agora na semana do carnaval (a qual infelizmente não vou poder participar) e no mesmo dia havia lido uns comentários de alguém, também do “mundo dos vinhos”, criticando um certo patriotismo exagerado com o vinho brasileiro. Me peguei refletindo sobre esses dois opostos.

Não acho que devemos ser complacentes com o vinho brasileiro, como se fossemos “cafe-com-leite”. Na verdade nem acho que isso exista de verdade. O vinho brasileiro historicamente sofreu muito mais crítica do que crédito. E deve-se à critica uma grande contribuição para a evolução dos vinhos que temos hoje no Brasil. E isso continua.

O que me angustia não é uma “possível” complacência. Me angustia justamente o contrário. É essa mania, ou culpa do passado colonial, do brasileiro em geral achar que tudo que é de fora é melhor, é mais importante, de melhor qualidade. A conhecida síndrome de vira-lata.

Eu acredito piamente no fomento daquilo que é bom e que é produzido próximo a nós como forma de contribuir para o desenvolvimento da região, dos seus negócios e do seu povo. O Ibravin tem feito seu trabalho de apoio, desenvolvendo a marca do vinho brasileiro, provendo crescimento. Mas infelizmente sinto que as vinícolas não estão fazendo seu ciclo completo. Essa seria a minha critica ao vinho brasileiro.

É preciso QUALIFICAR as representações. As vinícolas estão faltando justamente na ponta da cadeia. TODOS os meus rótulos nacionais eu comprei diretamente com as vinícolas ou pela internet. A gente tem mesmo que se esforçar pra ter acesso aos bons vinhos daqui. Quase nunca se consegue pedir um vinho nacional num restaurante, as cartas não representam o Brasil (falo especialmente do meu meio onde circulo: Recife e Salvador), que quando tem vinhos nacionais são aqueles de sempre, da vinícola de sempre, que não me enchem os olhos.

Porque se o objetivo é criar o costume no brasileiro em beber vinho daqui é preciso mostrar o que temos de bom. Porque temos MUITOS, muitos vinhos bons. Os reserva e gran reserva da Boscato, as linhas TOP da Valduga, os espumantes Cave Geisse, os ótimos roses nacionais, os Lidio Carraro, os Rio Sol… enfim.

Por que muitos continuam bebendo franceses medíocres se poderiam degustar bons nacionais? Ainda há falta de informação, mas o consumidor brasileiro, mesmo o eventual, tem andado mais criterioso e curioso. Falta mesmo oferta. Os “reservados” da Concha y Toro já saíram há muito das cartas de vinho dos bons restaurantes, enquanto os vinhos brasileiros não tem ocupado o seu merecido espaço.

Eu sempre me pego pensando nessas questões todas. Pois tem algo que ainda não se encaixa… Se há um órgão de fomento e apoio (Ibravin) e há bons produtos, está faltando o que para o vinho do Brasil estar no restaurante aqui do lado?

Terroir: O vale do São Francisco

Me lembro bem quando criança e viajámos de carro nas férias eu, dois primos e um tio, de Garanhuns (agreste pernambucano) a Petrolina (sertão pernambucano). Chegando em Petrolina avistávamos os vinhedos e tinham as paradas estratégicas para tomar o suco de uva e comprar geléias. Dentro deste contexto falar do Vale do Rio São Francisco tem uma pegada bem nostálgica pra mim, como boa pernambucana que sou!

O que acontece no Vale do São Francisco é que devido a ausência de inverno, as plantas estão sempre em atividade

João Santos, agrônomo da ViniBrasil (detentora da marca Rio Sol)

Pois bem, essa é a melhor forma de definir este terroir tão atípico. Fora das latitudes onde geralmente de produz vinhos, com sol o ano inteiro, é a única região do mundo onde se produz duas safras ao ano! A produção vitivinicola teve início na década de 70 e hoje o Vale do São Francisco só perde para o Rio Grande do Sul na produção de vinhos finos no Brasil.

Na serra gaúcha todos falam do Vale com alguma reticência. Com respeito, mas reticente. É de se entender: claro que uma videira que produz uma safra por ano “””deve””” conferir maior qualidade aos frutos do que aquela que produz duas vezes ao ano. Isso é um fato, mas nem por isso desmerece os vinhos do Vale. Tem que se entender os vinhos produzidos lá dentro desta particularidade local.

Grandes grupos nacionais e internacionais se estabeleceram por lá, trazendo a expertise, no manejo dos vinhedos e na enologia. Produzindo bons vinhos, inclusive uma boa parte já é exportada. Se produz Moscatel, Chenin Blanc, Sauvignon Blanc, Syrah, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet, Touringa Nacional entre outras castas. Fala-se muito bem do Rio Sol Reserva Syrah de 2005, infelizmente não tive oportunidade de experimentar.

Confesso que quando abro uma garrafa do Vale sempre testo logo a acidez, é que se os produtores deixassem o vinho só pela ação da natureza as uvas seriam muito doces e pouco ácidas por conta da ação perene do sol na maturação. Seriam produzidos vinhos fortes, porém pouco ácidos, chatos. Mas a enologia utiliza o processo de acidificação para equilibrar os tintos (principalmente) e o brancos. Esse procedimento nao é aceito em todos as regiões mundo, mas em Bordeaux e Borgonha é utilizado nas regiões mais quentes, que sofrem com este mesmo problema.

Faço questão de tomar e propagar os vinhos do Vale, por que sou bairrista mesmo. 😛 Brincadeira… Na verdade acredito muito no desenvolvimento da economia local fomentada pela valorização daquilo de bom que esta sendo produzido próximo a nós!

Há bons vinhos do Vale que compensam a experiência. Especialmente para perceber as diferentes sensações dos vinhos produzidos em uma região vitivinicola desbravada em pleno sertão pernambucano, que certamente poucos apostariam, e que como por capricho hoje já ocupa posição de destaque no cenário dos vinhos brasileiros.

A propósito: gosto muito do label Rio Sol. Acho que conseguiu imprimir a metáfora perfeita para os vinhos do Vale: água do Rio São Francisco + Sol o ano inteiro!