A efervescência espanhola

20120115-152537.jpg

No Brasil a importação de vinhos espanhóis ainda é tímida, considerando que a espanha é o terceiro maior produtor mundial de vinhos, perdendo apenas para a Itália e França. E mais engraçado perceber que quando se fala em vinho espanhol vem sempre a tona o grande rótulo Vega Sicília. Clássico e imponente como manda a fama e tradição. Mas há tempos a Espanha é muito mais do que somente o Vega Sicília.

Neste contexto, preciso pontuar a classificação oficial dos vinhos espanhóis que é um caso a parte. Pois ao mesmo tempo que facilita pode criar alguns confusões de “qualidade”.

Os vinhos Crianza (não confundir com vinhos jovem, significa “criado” em madeira) devem estagiar por 6 meses em barricas e 18 meses em garrafa. Já os Reserva vão estagiar 12 meses em madeira e mais 24 meses em garrafa. Os Gran Reserva, que seriam o topo da pirâmide, estagiam 24 meses em carvalho e 36 meses em garrafa.

Importante lembrar a história vinícola mais antiga da Espanha, especialmente em Rioja, onde se produziam vinhos mais brutos com muita presença de madeira, neste caso barris reutilizados de carvalho americano, que descaracterizam a tempranillo e conferiam aos vinho um caráter pouco elegante com aromas de couro inclusive, desagradáveis. Era o velho estilo dos vinhos espanhóis e que ainda podem ser encontrados. Com a mudança e evolução enológica que o país passou, focou-se mais na extração em si, maturação adequada, fermentação controlada, onde conseguiu-se extrair o caráter frutado que vemos hoje, quase que tornando o vinho espanhol um meio termo entre os austeros do “velho mundo” e os potentes do “novo mundo”. E Robert Parker, grande admirador dos espanhóis, foi uma peça importante no crescimento do mercado vinícola espanhol ao conferir notas bastante altas aos rótulos de lá. Não vou entrar no mérito dos critérios dele, não agora.

Estes “novos” vinhos não necessariamente precisam de tanto carvalho e tempo de garrafa para mostrar seu auge, e é por isso que nem sempre a classificação “hierárquica” do modelo espanhol funciona como sinônimo de qualidade. Cada uva, cada safra e cada modelo de vinificação proposto pelo enologo vai demandar um tempo de espera diferente. E essa é uma das grandes questões da enologia. Foi-se o tempo em que maior estágio em carvalho era sinônimo de maior qualidade.

Todos os níveis da classificação tem bons vinhos e o embate entre eles é bem interessante, conforme minha ultima tentativa. Na verdade, nos vinhos de mais tempo de espera (Reserva e Gran Reserva) ainda há o risco de encontrar os “velhos tipos” de Rioja: excesso de madeira (velha) e pouca elegância. E para descobrir, sem conhecer a vinicola, só há uma coisa a fazer: degustar. O que não será esforço algum, afinal de contas a Espanha anda nos trazendo de fato grandes vinhos.

Na sexta, embate com tempranillos

20120114-085704.jpg

A sexta foi de dois espanhóis potentes, cheios de vida. Um belo embate entre Rioja e Ribera del Duero, um de 2001 e o outro de 2006. Ambos os cortes com predominância da típica espanhola: tempranillo. Importante lembrar que a tempranillo é a mesma casta que em Portugal chama-se Tinta Roriz e também Aragonês.

– Beronia Reserva 2001
– Condado de Haza Crianza 2006

A noite prometia MUITO. Saída do trabalho, belos vinhos, ótimo lugar (o querido Speciali), boa comida, excelentes companhias. Mas como diz a máxima do twitter “a sexta sempre promete… mas nunca cumpre“. Foi o que aconteceu. Eu imaginando curtir ótimos rótulos, e pensando no material pro blog, percebendo todas as nuances do belíssimo embate cujas diferenças, perante as semelhanças, são bem claras: a diferença aromática, persistência, carga tânica, retrogostos, o terroir. Quando de repente a noite… desandou, perdeu todo o sentido, perdeu o embate.

Nao tem jeito. Vinho é isso. É estar confortável. É estar de bem. Parafraseando Ortega y Gasset: “Somos nós e nossas circunstâncias”.

Em respeito aos vinhos da noite fiz questão de não avaliá-los. Eles não mereciam qualquer reticência do meu ~estado de espírito~.

Esta foi a noite de dois grandes vinhos. Sem notas porque não estive à altura deles. Só posso deixar aqui, como forma de me redimir, minha reverência a eles na expectativa de uma nova e melhor oportunidade!

* R$ 100, o Beronia Reserva na www.wine.com.br (safra 2006)
* R$ 116, o Condado de Haza Crianza na www.mistral.com.br (safra 2007)