São Paulo. Seus encantos.

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Vir a São Paulo é quase que uma necessidade pessoal, suas mil e uma possibilidades é um sempre convite ao hedonismo gastronômico. Como boas companhias estão sempre presentes o convite à experimentação é ainda maior.

O lugar desta noite foi o restaurante A Bela Sintra, de pegada portuguesa porém bastante formal, tem um serviço impecável e boa carta de vinhos cujos rótulos portugueses não me chamaram a atenção. Como a pedida natural seria o bacalhau, e o tinto era mandatário entre os convivas, escolhi o único chianti clássico da carta. Foi uma pena a harmonização com lagostins, pedida de uma parte da mesa, um pouco sofrível com o tinto. Mas a boa companhia, e boa conversa, superou esse “detalhe”.

O vinho: Chianti Classico Poggio Selvale 2005

Na taça um vinho bastante translúcido com aromas um tanto fechados no início, mas com grande expressão de fruta, e madeira discreta e elegante. Em boca vinho fácil, de corpo ligeiro, ótima acidez, taninos macios, porém com a complexidade dos toscanos da casta sangiovese. Mais um bom, e versátil, italiano.

*R$ 150 no A Bela Sintra

ITÁLIA

A Itália e um Brunello di Montalcino

Quanto mais rótulos a gente experimenta mais rótulos a gente quer experimentar. Cada garrafa é uma surpresa. E confesso que essa experimentação faz meus olhos brilharem. Uma nova casta, um novo produtor, um novo terroir, até uma safra diferenciada… me motivam absurdamente! Dificilmente compro mais de duas garrafas de um mesmo vinho…

Mas há dias em que a gente quer aquilo que costumo chamar de “vinho conforto”. Aquele vinho que a gente sabe que gosta, sabe o que esperar, sabe o que vai ter! Os vinhos italianos funcionam assim pra mim. Mesmo quando são de produtores que nunca provei sei o que quero quando escolho um Amarone, um Chianti, um Barolo, um Brunello.

O “estilo italiano” mais escondido me encanta, normalmente vinhos fechados aromaticamente mas que na boca surpreendem. Utilizam as uvas autóctones do país que fazem a experimentação ter sempre muita identidade: sangiovesenebbiolo, corvina, molinara… Tem a cara da Itália!! Por isso mesmo os chamados “super toscanos” nunca me despertaram tanto interesse. Acho fantástico o movimento em si, de contraponto à uma legislação fechada e caduca, propondo o novo. Dissidências normalmente evoluem o pensamento no mais diversos âmbitos e foi o que aconteceu na Itália com os super toscanos. Mas no caso desde movimento, como o foco foi muito na utilização das castas internacionais (cabernet sauvignon, especialmente), não me conquistou pelo produto, mas sim pela ideia progressista. Acredito que o melhor da Itália ainda está nas suas uvas próprias, que considero parte da expressão de terroir do país! 😉

O vinho: Brunello di Montalcino – Belpoggio 2004

Na taça demonstra um bastante visível halo de evolução, com uma cor já um tanto “atijolada”. Fechado, muito fechado no nariz. É preciso muito esforço e espera para sentir seus aromas. Na boca taninos elegantes, domados na medida, ótima persistência, acidez num bom equilíbrio com a complexidade que se espera desses vinhos: harmonia. É daqueles vinhos que nos entristece ver o fim da garrafa porque sem dúvida, degustá-los é ter a sensação de estar lhes desvendando…

* R$ 210, na www.superadegaexpress.com.br

ITÁLIA

Chianti Classico Le Ellere (Castello D’Albola) 2005

A ideia original pra hoje era um rosé. Mas para harmonizar com um filé de carneiro acompanhado de pure de mandioquinha (confort food total!) esse Chianti me pareceu uma melhor pedida, ou ao menos tentativa. Foi comprado numa ida à Perini e o preço foi o que chamou atençao à principio (R$ 45). Valeria a pena? Ou mais um barato que sai caro?

Chianti é uma DOCG italiana, da Toscana. Sao opçoes menos encorpadas aos potentes Brunellos di Montalcino, que também são elaborados com a casta sangiovese mas que tem alguns peculiaridades na vinificaçao como a passagem por mais tempo em carvalho.

Este chianti na taça é bastante límpido, lembrando um pinot noir visualmente. Muito aromático (dar um tempo de taça aos italianos é mandatário), aroma de frutas negras, um tanto de tostado (ele estagia 12 meses em madeira). Na boca taninos redondos com acidez média pra baixo, quase um perigo, ja demonstrando sua evoluçao. Acompanhou muito bem o carneiro, segurando a carga protéica sem se sobressair. Por sinal fiquei bastante curiosa por uma nova harmonização deste carneiro (rapidamente marinado no alho, pimenta, alecrim e vinho do porto) com um syrah jovem. Assunto para novos posts! 😉

O vinho é muito bom, e é sem sombra de dúvidas merecedor do selo “otima compra”, o primeiro do blog a receber o selo. Não achei lojas virtuais que os vendem mas existem outras linha de chiantis da mesma vinicola (www.albola.it), talvez mais fáceis de encontrar. Certamente vou vasculhar a Perini em busca de outros rótulos do mesmo produtor para experimentar.

Minha queda pelos italianos me faz adorar os duelos “Toscana vs Piemonte”. Brunellos vs Barolo. Chianti vs Barbaresco. Enfim… nessa peleja eterna nunca sai uma região vencedora, e isso é definitivamente o barato da experimentaçao.

* R$ 45 na Perini (Salvador/BA)

ITALIA